A Qualcomm pretende entrar e desenvolver atividade em Portugal, depreende-se da entrevista a Douglas Vaz Benitez, managing director da subsidiária espanhola, ao Dinheiro Vivo (DV). O gestor liderou uma comitiva da Qualcomm na Europa que esteve em Portugal na semana de 17 a 21 de outubro e reuniu com membros do governo e das autarquias de Lisboa e Oeiras, com propósito de apresentar o negócio da gigante tecnológica norte-americana e de conhecer a realidade portuguesa (tecnológica e empresarial).
O interesse em Portugal vem diretamente de Cristiano Amon, que assumiu a presidência executiva da Qualcomm no verão de 2021. O atual líder da tecnológica é brasileiro e quer relações mais estreitas entre a empresa e Portugal. De acordo com Douglas Vaz Benitez, também brasileiro, trata-se de um mercado de língua portuguesa na Europa, reconhecido pelas competências tecnológicas e ainda por explorar pela criadora dos famosos chipsets processadores Snapdragon.
"Temos um novo presidente que assumiu há um ano a liderança e a primeira coisa que ele [Cristiano Amon] disse à sua equipa de gestão é que quer aproximar-se do mercado português. Essa é a razão da nossa visita a Portugal. Estamos a preparar essa chegada da Qualcomm ao mercado português, a criar pontos de contacto ao conversar com vários setores - desde o setor da educação até às startups, com empresas e governo, para ver onde podemos agregar valor no âmbito do nosso trabalho", confidencia o managing director da Qualcomm Espanha, que na rede social LinkedIn já inclui no cargo de chefia a operação portuguesa.
Douglas Vaz Benitez explica que "ainda é muito cedo" para falar de uma data a partir da qual a Qualcomm crie uma estrutura e operação em Portugal, considerando que a abordagem ao mercado português está numa fase inicial. Pelo mesmo motivo, também não diz que área de negócio teria mais potencial para captar um investimento da companhia.
"Quando entramos num mercado, entramos devagar", realça o gestor. Justifica que é preciso, primeiro, "entender que oportunidades há" e como a empresa "pode contribuir". "Vamos passo a passo estabelecer uma relação com o mercado", afirma. Não obstante, admite a hipótese de a Qualcomm entrar no país através de uma aquisição de uma outra empresa com elevado potencial inovador e tecnológico (idealmente uma startup).
Por isso, a comitiva liderada por Benitez, que inclui duas pessoas especializadas em assuntos governamentais e habituadas a dialogar com a União Europeia, só começou a sondar o estado do mercado português. Reuniu com assessores para os assuntos económicos de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa. Também com o secretário de Estado da Internacionalização, Bernardo Ivo Cruz, bem como com o vice-presidente da câmara de Oeiras, Francisco Rocha Gonçalves, e com Lourenço Oliveira, assessor para a economia e inovação do autarca de Lisboa Carlos Moedas.
"As [primeiras] conversas com o governo foram muito frutíferas", diz o gestor máximo da Qualcomm para a Península Ibérica, notando que os planos do governo para o digital no âmbito do Portugal 2030 e do Plano de Recuperação e Resiliência foram alguns dos tópicos abordados, bem como "as estruturas da organização do setor empresarial e do setor da educação".
"Procuramos perceber quais são as prioridades de Portugal e como podemos aportar também nos planos de digitalização", acrescenta.
A equipa da Qualcomm também esteve com Randi Charno Levine, embaixadora dos EUA em Portugal, e reuniu com a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) e com o diretor-executivo do Portugal Digital, Bernardo Santos e Sousa.
Outro pormenor que revela que o país interessa à gigante tecnológica é que já há uma consultora a tratar da comunicação corporativa, nomeadamente a Hill+Knowlton Strategies, do grupo WPP.
A Qualcomm acredita que "há bons planos", à primeira vista. Douglas Vaz Benitez destaca a ambição das autoridades nacionais no desenvolvimento de Smart Cities (cidades inteligentes) e no fomento de hubs tecnológicos e de startups. Aliás, a Qualcomm quer "entender o ecossistema de startups" nacional e "que tipo de tecnologias estão a ser desenvolvidas", considerando que "muitos dos hubs" da tecnológica na Europa "surgiram da proximidade com as startups".
Revela também ter conhecimento da existência de uma concentração "muito grande" de empresas de cibersegurança em Portugal, algo que poderia interessar à companhia norte-americana se o trabalho desenvolvido permitisse "alguma sinergia" com o que a norte-americana desenvolve.
Maior interesse poderá suscitar a indústria automóvel nacional, tendo em conta a presença de unidades de produção de diferentes fabricantes automóveis no norte do país, incluindo a fábrica da Bosch em Braga, que desenvolve projetos na área da mobilidade.
"A Bosch é um parceiro comercial nosso. Talvez exista aí uma oportunidade de negócio, mas ainda não chegamos a esse nível de detalhe para o futuro", afirma Benitez.
O gestor da Qualcomm reitera que ainda é cedo para indicar potenciais áreas de investimento em Portugal. Não obstante, sinaliza uma área onde a empresa pode e está disponível para "contribuir de imediato": formação de talentos.
De acordo com o managing director da Qualcomm Espanha e Portugal, a empresa sinalizou ao governo poder apoiar na formação de pessoas na capacitação de competências digitais, tendo até solicitado apoio para chegar até às universidades e politécnicos.
A Qualcomm também estaria disponível para recrutar jovens talentos portugueses, tendo em conta que o trabalho remoto em algumas áreas permiti-lo-ia. Neste ponto, o gestor lembra que a empresa tem um programa de formação - Qualcomm Wireless Academy. "Em breve vamos ter um anúncio grande na Europa, nesse programa, e Portugal é sem dúvida um candidato a fazer parte dele caso as universidades queiram", adianta, reforçando que "o talento digital português é muito bem-vindo".
O interesse em Portugal surge numa altura em que a vizinha Espanha procura atrair fabricantes de chips, tendo em conta a crise dos semicondutores. O governo de Pedro Sánchez tem dialogado com as norte-americanas Qualcomm, Intel, Micron e Cisco, visto que o PRR espanhol prevê 11 mil milhões de euros para produção de chips em Espanha.
Questionado sobre se Portugal, de alguma forma, poderia contribuir para algum tipo de solução na região ibérica, Douglas Vaz Benitez explica que o que a Qualcomm tem feito, em Espanha, passa por partilhar "a visão" da empresa sobre o setor e indicar por onde passará a procura de chips no futuro. Como não tem fábricas - o que a tecnológica faz é desenhar a arquitetura e montar chipsets -, a Qualcomm está a colaborar com Espanha para o "caso do país conseguir atrair ou investidores ou uma fabricante de semicondutores".
"Se Portugal poderia participar? Se o governo português tiver ambição nesse sentido não vejo porque não", salienta Benitez.
Refira-se que, ao contrário de Espanha, o PRR português não tem nada previsto sobre chips. No entanto, o European Chips Act (Regulamento Circuitos Integrados europeu) determina que a União Europeia terá de representar 20% da produção mundial de semicondutores em 2030. "Hoje a Europa representa 10% da produção de semicondutores mundial, que é muito pouco quando comparado com o consumo dos mesmos na Europa", repara Benitez, que apoia a ambição de Bruxelas.
A quota de produção europeia tem de duplicar em dez anos. "Isso significa que o mercado de chips também vai crescer, duplicar. Logo, a Europa vai ter de multiplicar por quatro a sua capacidade de produção, ou seja, para chegar aos 20% é necessário quadruplicar a produção", estima o gestor.
"Quer dizer que vai haver muita procura por chips na Europa e não vejo motivos para Portugal não aproveitar isso", acrescenta.
O líder da comitiva da Qualcomm que está a sondar o mercado português lembra, porém, que a existência de fábricas de chips acarretam "investimentos multimilionários". "Estamos a falar de valores na ordem dos 20 mil milhões de euros para chips de alta tecnologia", diz. No entanto, para semicondutores de nível "maduro" ou "intermédio" (de dimensão superior a dez nanómetros), que têm "muita procura", o investimento necessário "é infinitamente mais baixo e gera mais empregos". O gestor realça que Alemanha, França e Inglaterra são alguns dos países europeus que estão a avançar com investimentos nesse sentido.
A Qualcomm é uma empresa norte-americana com sede em San Diego (Califórnia, EUA). Foi criada em 1985 e, desde então, é uma referência mundial na construção de chipsets para telemóveis. Essa é a principal área de negócio, mas com a chegada do 5G e a transformação digital, a empresa começou a montar chipsets para outro tipo de soluções - todas relacionadas com comunicações sem fios.
Hoje o negócio da Qualcomm é mais abrangente. O managing director da empresa para Espanha e Portugal lembra que a "nova Qualcomm" existe "desde há seis anos". Primeiro, a tecnológica passou a fornecer chipsets para computadores, uma área onde tem parcerias com a Microsoft e Google, Lenovo, Acer ou HP.
A partir da unidade de computadores, a empresa criou uma linha de negócios só para o metaverso. ""Praticamente todos os produtos [Oculus Quest ou Hololens] que hoje estão no metaverso funcionam em cima das nossas plataformas", assevera o Benitez, afiançando que a empresa investiga o metaverso "há mais de dez anos".
A estas áreas acresce o regresso da empresa ao negócio das infraestruturas telco, fornecendo componentes para redes 4G e 5G e OpenRan, bem como trabalhando com small cells (dispositivos de densificação, vulgo repetidores, do sinal de rede).
Outra área passa pelos routers que asseguram conectividade wifi. Os chipsets da Qualcomm já são usados para as tecnologias wifi5, wifi6 e wifi7, tendo parcerias neste setor com empresas como a Cisco ou TP Link e diferentes operadores de telecomunicações.
A par da tecnologia wifi, a Qualcomm também fornece componentes para bluetooth, seja para um simples auricular até ao controlo remoto de uma consola de videojogos.
Outra área nova e que está a ser muito desenvolvida é o setor automóvel. A Qualcomm viu na indústria automóvel uma oportunidade, considerando a crescente conectividade dos veículos com as redes móveis. Douglas Vaz Benitez conta que o trabalho da empresa nessa área não passa apenas por fornecer chips para telemetria, mas também semicondutores que vão ajudar a migrar os sistemas de combustão fóssil para sistemas elétricos, e da condução manual para a condução autónoma. Nesta área, a tecnológica tem desenvolvido uma plataforma - apelidada de "chassi digital" - que "permite funcionalidades de telemetria num automóvel, sistemas de entretenimento, controlo do computador de bordo, conectar os dados do carro à cloud e plataformas de condução autónoma ou assistida".
Esta área tem sido um dos novos focos de sucesso, garante Benitez, considerando que dos mais de quatro mil trabalhadores da empresa na Europa cerca de dois mil trabalham em Munique (Alemanha), onde a empresa tem um hub para a indústria automóvel.
A Internet das Coisas (IoT) é outra aposta, com a gigante tecnológica a focar-se aqui em chipsets para smartwatches ou headphones, do lado do consumidor, ou, do lado empresarial, em componentes para digitalizar partes da operação de grandes empresas. Para Benitez, esta área "representa a maior oportunidade para a Qualcomm, porque ao olha para a digitalização" em cloud e em edge (tecnologia de ponta). Aqui, a norte-americana tem dialogado, por exemplo, com a Siemens e a Bosch.
"Já não estamos apenas focados em telemóveis e as novas áreas já representam 30% das receitas. A diversificação já é uma parcela importante do que nós fazemos", conclui Douglas Vaz Benitez, managing director da Qualcomm para a região ibérica.