Nos bastidores do "up and down economics"

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Hoje e aqui, proponho-lhe uma visita aos bastidores do que o Nobel da Economia, Paul Krugman, designou de "up and down economics" (a inflação desceu, o consumo subiu, o investimento estagnou, etc.). Os números para a economia portuguesa, anunciados esta semana pelo INE, servem de pretexto. Conjugados com o valor para a inflação, em maio, resultam num cenário positivo, muito melhor do que o esperado que, ainda assim, deixa espaço para algumas reflexões.

Numa perspetiva que vá para lá do imediato, o facto de a formação bruta de capital fixo ter estagnado causa perplexidade, numa altura em que se deveria estar a executar o PRR em força e quando se anunciam recordes nos acordos para o investimento estrangeiro. Não querendo especular (o "up and down economics" é compatível com várias narrativas), limito-me a notar que seria importante termos mais informação, por exemplo, cruzando-a com os dados que a gestão do PRR, ou as CCDR, hão de ter.

Dúvidas suscita, igualmente, o comportamento do consumo privado. Segundo o INE, terá desacelerado (não confundir com diminuído). As explicações parecem óbvias: perda de poder de compra devido à inflação, aumento dos juros, etc.. Esta desaceleração da procura é, na ótica do controlo da subida de preços, positiva. No seu agregado, esconde dinâmicas muito diferentes que podem ser adivinhadas em dois outros dados: o forte crescimento do crédito ao consumo e o otimismo que, em contraste com os empresários, os consumidores, no seu conjunto, manifestaram no último inquérito de clima económico. Mais perguntas: sabendo-se dos custos exorbitantes daquele tipo de crédito, e da baixíssima literacia financeira dos portugueses, estarão as instituições de crédito a efetuar um escrutínio cuidado na sua concessão? O que alimenta, e como se distribui, o otimismo pelas classes de rendimentos? Os dois factos estão ligados?

Estas aparentes minudências são essenciais para dar coerência às políticas, sob pena de vogarmos ao sabor dos humores do turismo e de estarmos a alimentar situações (endividamento) cujos efeitos perversos bem conhecemos.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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