Miniópera, cantata ou opereta? A designação é irrelevante.
Dilui-se nos 16 minutos deste duelo musical inspirado numa tão
surrealista quão violenta troca de tweets. Estímulo ao crescimento
versus austeridade. De um lado Paul Krugman, Nobel da Economia e
cronista do New York Times; do outro, Toomas Hendrik Ilves,
presidente da Estónia.
O episódio ocorreu na noite de 6 de junho de 2012. Foi
sobejamente comentado na internet. Não é todos os dias que um chefe
de Estado em exercício mantém um informalíssimo braço-de-ferro
com um Nobel da Economia, mormente no Twitter. Contudo, ninguém
imaginaria que dali brotasse uma das primeiras ópera financeiras da
nossa pós-modernidade. Nostra Culpa, assim se chama, estreou-se dia
7 de abril, em Tallinn, capital da Estónia.
"Noooostra culpa", arranca a soprano Iris Oja, caprichando nos
agudos: "Noooostra culpa!" Os graves ficam a cargo da Orquestra
de Câmara de Tallinn, que lhe injeta o dramatismo possível. Em
conjunto, cantora e instrumentistas gritam bem alto o orgulho ferido
de um chefe de Estado. Tentam interpretar em versão simplificada
alguns dos tweets originais: "Imagino que ser prémio nobel
autoriza dar cátedra sobre questões orçamentais e falar do meu
país como se de um território vago se tratasse." Após acusar
Krugman de soberba, autoritarismo e paternalismo, Toomas Hendrik
Ilves acrescentaria ainda: "Mas sim, o que sabemos nós? Não
passamos de uns europeus do Leste, estúpidos e idiotas. Não fomos
iluminados. Um dia talvez o compreendamos. Nostra culpa!"
A lenda cresceu depressa. Reza que tudo se precipitou após o
presidente abandonar uma cerimónia oficial num barco ao largo de
Riga, na vizinha Letónia. Já no hotel, Ilves reagiu a quente a
partir do iPhone. Não concebeu que Krugman diminuísse, ali na
internet, sem mais nem menos, os êxitos recentes alcançados pelo
seu país. "É a isto que chamam triunfo económico?", tweetara o
Nobel horas antes no seu conhecido blogue no New York Times, com
direito a gráfico e tudo.
"Foi uma reação emocional e visceral que, de alguma forma, o
conectou com as pessoas", justificou à BBC Scott Diel, principal
impulsionador do projeto. "Mesmo os que não estavam interessados
no debate económico gostaram de ver um chefe de Estado comportar-se
como um ser humano", acrescenta Diel, norte-americano que reside na
Estónia há duas décadas e autor do libreto. Quanto à composição
de Nostra Culpa, pertence a Eugene Birman, norte-americano de origem
letã.
Os dois atos de Nostra Culpa resumem de forma sublime, e tão
breve como uma mensagem no Twitter, o sururu desencadeado pelo
vocábulo "austeridade". As críticas de Krugman e a sua
proverbial matriz keynesiana irrompem na primeira metade da peça:
"Austeros, estimulem! O estímulo fiscal soa, aumentem a dívida
pública! Desvalorizem!" O segundo ato é puramente reativo. Traduz
a resposta mordaz, ultrairónica, do presidente estónio: "Pensões
congeladas, salários cortados, desvalorização interna, Nostra
culpa!"
"A ópera está muito bem conseguida, dá para perceber a
intensidade da história, daí algum excesso, embora sem laivos
wagnerianos", comenta o português José Diogo Neves, produtor
musical e engenheiro de som em Tallinn. "É uma peça claramente
contemporânea, agressiva, fresca e moderna."
Porém, méritos artísticos de lado, quem leva a melhor neste
improvável despique? O neokeynesiano Krugman ou Toomas Hendrik
Ilves, líder de uma república orgulhosa da austeridade
autoinfligida durante a crise financeira de 2008/2009? A resposta é
tão polémica quanto as estatísticas relativas à Estónia, cuja
população hoje não supera 1,3 milhões de habitantes.
Se é verdade que o PIB estónio encolheu 16% em 2009, após os
apertos orçamentais, bastante consensuais na região, a economia do
Tigre Báltico cresceu 7,6% em 2011 e 3,2% em 2012. Prevê-se que no
final de 2013 também ande perto de 3%. Mais significativo, o défice
orçamental e a dívida pública estónias são a inveja da zona
euro: 0,3% e 10,1% do PIB, respetivamente.
O lado negro, esse, é igualmente quantificável, embora tapado
pelo foco continental na austeridade. A riqueza da Estónia ainda não
regressou aos valores pré-2009, a taxa de desemprego juvenil empurra
muitos recém-licenciados para a emigração e, à imagem de
Portugal, tem dos índices de pobreza mais altos da Europa (cerca de
20%). Outro fator menos óbvio terá alimentado a azeda troca de
palavras. Temos de viajar até à costa leste dos EUA para o
compreender melhor. O presidente Ilves é um ex-cidadão
norte-americano (a sua família emigrou da Estónia após a ocupação
soviética) e licenciou-se na Universidade de Columbia. Quanto a
Krugman, é professor em Princeton, famosa pelos keynesianistas que
produz, e também arquirrival de Columbia, cuja filosofia económica
tende mais para o monetarismo.
Até ao momento, nem presidente nem nobel se pronunciaram sobre
Nostra Culpa. Uma questão de tempo, talvez. Pertinente como poucas,
a miniópera (dura apenas 16 minutos) vai ganhando eco internacional.
Encaixa no zeitgeist. "Mesmo que me aproxime mais das teses de
Krugman, tenho simpatia por um presidente que está cansado ao fim de
um dia de trabalho pelo seu país e troca tweets com alguém que não
lhe responde. E não me coloco questões puritanas sobre quanto
álcool circulava no sistema sanguíneo do presidente Ilves",
confessa ao Dinheiro Vivo Kristopher Rikken, editor executivo do
portal em inglês da Rádio Televisão da Estónia (ERR).
De resto, Kristopher junta-se ao coro dos que lançam o repto: "O
que acho que é Ilves e Krugman devem pôr-se de acordo em dialogar,
ainda que se odeiem. Mesmo que não tenha havido uma verdadeira
guerra no Twitter, é estúpido que não façam agora um debate...."