A economia portuguesa deverá crescer 1,8% em termos reais, este ano, muito por causa de uma nova vaga de turismo que deverá ser mais forte do que se previa, indica o Banco de Portugal (BdP) no novo boletim económico, publicado esta sexta-feira. A inflação um pouco mais baixa também ajuda.
Este crescimento real superior aos 1,5% previstos pelo BdP em dezembro também é ajudado por um ligeiro alívio na previsão de inflação para o conjunto deste ano. Continua alta, mas desce de 5,8% (dezembro) para 5,5% agora.
O banco central governado por Mário Centeno torna-se assim a instituição mais otimista quanto ao desempenho do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O governo prevê 1,3% (OE2023, publicado em outubro). Em fevereiro, a Comissão Europeia previu apenas 1%. Esta semana, o Conselho das Finanças Públicas (CFP) projetos uma expansão de 1,2% este ano.
Mas há alguns sinais mais evidentes de que a crise inflacionista e o abrandamento económico que começou a acontecer no ano passado estão a chegar ao mercado de trabalho.
Embora o Banco de Portugal, considere que "o mercado de trabalho mantém-se robusto no horizonte de projeção", a verdade é que o emprego irá praticamente estagnar (varia 0,1% este ano).
O desemprego é revisto em alta e sobe para uma média de 7% da população ativa em 2023. Foi de 6% no ano passado. E ficará perto de 7% até 2025, o último ano deste novo exercício de previsão do banco central.
Mas parece que é o turismo que volta a evitar uma aterragem mais dura da economia. "Face a dezembro, a projeção para o crescimento do PIB em 2023 é revista em alta, refletindo uma evolução mais favorável das exportações de turismo e, em menor grau, do consumo privado", diz o Banco.
"A redução da inflação este ano é mais expressiva do que o projetado em dezembro, traduzindo o ajustamento nos mercados energéticos", mas "as projeções para 2024-25 permanecem praticamente inalteradas.
O emprego está quase estagnado e o BdP explica "estas variações são enquadradas pela relativa estabilização da população em idade ativa (com os fluxos de imigração a compensarem a evolução do saldo natural) e das taxas de atividade e de desemprego".
"A taxa de desemprego aumenta para 7% em 2023 (próximo do observado em 2018-19), tendo em conta os desenvolvimentos recentes e o impacto desfasado do abrandamento da atividade ao longo de 2022".
O novo investimento, que pode ser a chave para fazer aumentar mais o emprego, está a perder gás.
O BdP fiz que o aumento das taxas de juro e do custo do financiamento ajudam a explicar este desaire, sobretudo no setor privado.
Em dezembro, a previsão era de aumento de 2,9%, mas o Banco diz agora que o investimento fixo não irá além dos 2,3% em 2023.
"O investimento público tem um forte impulso em 2023", mas "nos anos seguintes consideram-se taxas de crescimento progressivamente menores". "O crescimento médio em torno de 10% no horizonte de projeção é explicado em larga medida pelo impacto da execução dos projetos financiados pelo PRR", diz a entidade liderada por Centeno.
O banco central refere ainda que "o investimento empresarial deverá crescer menos em 2023 (0,9%, após 2,6% em 2022), refletindo o aperto das condições de financiamento e o abrandamento da procura global".
Por exemplo, "o investimento em habitação será a componente da despesa mais afetada pelo aumento das taxas de juro, projetando-se uma redução em torno de 4% em 2023", diz o BdP.
"A evolução deste agregado será igualmente condicionada, do lado da procura, pelo impacto da inflação sobre o poder de compra das famílias e, do lado da oferta, pelos custos de construção elevados e a dificuldade de contratação de mão-de-obra", acrescenta no novo estudo.
"A manutenção da incerteza elevada também motiva a adoção de uma postura mais cautelosa por parte das empresas, contribuindo para o adiamento de decisões de investimento".
No entanto, "espera-se que a aceleração da procura, o abrandamento gradual dos custos de produção e o desvanecimento dos constrangimentos nas cadeias de fornecimento potenciem um maior dinamismo desta componente a partir da segunda metade de 2023", refere o BdP.
No consumo das famílias, o BdP espera um aumento de 0,3% em 2023, num quadro de "crescimento contido do rendimento disponível real e pela recuperação da taxa de poupança".
"O abrandamento dos preços e a evolução dos salários contribuem para um maior crescimento do rendimento disponível real em 2024-25, permitindo um aumento do consumo privado de 1,2%, em média, a par de uma recuperação da taxa de poupança para um valor próximo do observado antes da pandemia."