O Protagonista: Paulo Rocha, diretor de Inovação e Sustentabilidade Cimpor
Apesar do progresso na redução das emissões de CO2 relacionadas com o uso de combustíveis fósseis, continuará a haver emissões significativas relacionadas com o processo de alguns setores, como o fabrico de cimento. O desafio é capturar e armazenar esse dióxido de carbono para o rentabilizar com as tecnologias CCUS (captura, utilização e armazenamento de carbono). "São tecnologias disruptivas que permitem a captura de CO2 nos fornos de cimento", começa por explicar Paulo Rocha. "Depois, esse dióxido de carbono pode ser transportado e armazenado em formações geológicas. Em unidades de transformação, será combinado com hidrogénio, produzindo produtos químicos e combustíveis sintéticos, ou ajudar à carbonatação de materiais de construção."
O que significa este novo paradigma para a indústria cimenteira?
Ainda não foi atingida a maturidade no processo de captura, mas o transporte em pipeline é algo já conhecido, tal como a injeção de CO2 em formações geológicas. O problema neste momento é definir as especificações mínimas para o CO2 e as elevadas quantidades de energia elétrica para o processo. É necessário ter energia elétrica renovável, abundante e competitiva para que os custos dos produtos alternativos sejam competitivos com os produtos convencionais. Há uma mudança de paradigma. Até aos dias de hoje o petróleo é explorado para produzir energia elétrica; de futuro o objetivo é a energia elétrica que vem de fontes renováveis ser utilizada para fabricar os combustíveis sintéticas com pegada de carbono nula ou reduzida.
Como se vão implementar as tecnologias CCUS?
O governo europeu está a destacar verbas para estes projetos. Infelizmente, Portugal ainda não tem este tipo de tecnologias reconhecidas ao nível dos documentos estratégicos. É preciso financiamento para planos de investigação, de desenvolvimento e infraestruturas. Há ainda o problema do armazenamento em formações geológicas, porque estas não se encontram igualmente distribuídas na Europa. Os emissores precisam de ter livre acesso e de estar em pé de igualdade nesta forma de armazenamento de CO2, para não haver custos diferenciados em função da localização. São necessárias infraestruturas pan-europeias. Cada país criará as suas próprias redes, interligadas com um mecanismo que equilibre os custos das diferentes indústrias.
E quanto à legislação em Portugal?
É necessária a criação de condições para que os intervenientes, já existentes ou novos, criem valor e os seus próprios modelos de negócio. É imperativo um quadro regulatório que crie uma certeza mínima para definir cada negócio. A descarbonização da economia é um trabalho conjunto. Temos de ter leis e diretivas europeias nesse sentido. E Portugal terá de as aplicar.