Novos desafios para a aquacultura

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A Economia do Mar é cada vez mais uma aposta estratégica para o futuro e são muitos os desafios que se colocam ao nível da sua cadeia de valor e aposta em sede de inovação competitiva. O papel das empresas e centros de competência passará pela aposta em redes inteligentes de cooperação, com um foco claro em termos de impactos e resultados. Uma das áreas mais desafiantes neste importante cluster é a da aquacultura, que tem pela frente novos desafios em termos de investimento e reforço da sua base competitiva. Aproveitar a carteira de recursos e competências que temos disponíveis e acelerar o processo de criação de valor será sem dúvida a etapa que se segue neste novo tempo.

A bióloga marinha e gestora de negócio Sofia Hoffmann de Mendonça, profunda conhecedora do setor, destaca que "ainda que a produção aquicola no nosso país continue a crescer em termos de volume e de valor, contribui somente com 8 a 9% para o total das descargas de pescado a nível nacional. Sabe-se que os bivalves, e espécies como o pregado e o linguado são os organismos aquáticos que mais expressão têm na aquacultura a nível nacional e que o volume de capturas tem demonstrado estabilidade nos últimos 20 anos; por outro lado com um aumento do consumo de pescado per capita de 70% nos últimos 40 anos, é indiscutível a necessidade que existe em complementar a atividade da pesca pela falta cada vez mais preocupante da sua sustentabilidade ecológica e ambiental.

Em Portugal praticam-se sobretudo os regimes de cultivo intensivo (que utiliza maioritariamente ração na dieta dos animais) e o regime extensivo (no qual o consumo de ração é bastante reduzido), que constituem a base de construção da cadeia de valor nas suas dimensões. Num contexto de falta de sustentabilidade na própria prática da produção animal, a aposta das algas a grande escala (incluindo as macroalgas e as microalgas) poderão fazer parte da solução, depois de ultrapassadas as barreias do custo de produção e do seu perfil organoléptico, ainda que comecem a ser cada vez mais integradas na indústria alimentar "saudável" para além do papel cada vez mais importante que exercem a nível mundial como suplementos funcionais direcionados para a complementação de micronutrientes essenciais e biodisponíveis, e com princípios activos e funcionais.

São de facto muito interessantes os desafios que se colocam a este setor nos próximos anos e que especialistas como a Sofia Hoffmann de de Mendonça têm procurado colocar na agenda. Existe também toda a componente de educação ambiental e ecológica que se pode praticar à volta destas atividades de produção marítima, mostrando que o pescado de aquacultura também poderá apresentar características organolépticas (sabor, consistência e aspeto) igualmente aceitáveis, caso haja boas práticas de produção (utilização reduzida de antibióticos, densidade populacional na área / volume de cultivo) nomeadamente por se alimentar parcialmente do que o mar oferece e na maioria dos casos, dependendo das espécies, por haver mais espaço para a movimentação dos animais (comparativamente aos sistemas de produção intensiva).

Numa altura em que a promoção da Marca Portugal está na ordem do dia e cada vez mais necessitamos de exemplos de boas práticas, o caso da aquacultura terá certamente um contributo a dar. "Portugal tem do melhor peixe no mundo" é um brand que prestigia o nosso país nos competitivos mercados internacionais e a aquacultura tem aqui um contributo a dar. Inovação, sustentabilidade, valor são palavras-chaves nesta agenda de futuro para a aquacultura que o Professor Carlos Sousa Reis, falecido a semana passada, soube tão bem defender e promover.

(Nota: O autor escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico)

Francisco Jaime Quesado, Economista e Gestor - Especialista em Inovação e Competitividade

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