O choque é, muitas vezes, um catalisador para a alteração de comportamentos e existem números que mostram a urgência dessa mudança. Só em 2020, a Electrão - Associação de Gestão de Resíduos diz terem sido despejadas mais de dez toneladas de plástico no oceano, enquanto os últimos cinco anos foram os mais quentes desde que há registo. Ainda que não sejam dados novos, são sinais preocupantes para o futuro da humanidade e que serviram de motivação para a criação do movimento Faz Pelo Planeta by Electrão, lançado nesta quinta-feira. "É o espaço da consciência, da atitude e da mobilização individual que queremos pôr em destaque com este projeto", explica Pedro Nazareth, diretor-geral da associação.
A iniciativa representa um esforço adicional para a sensibilização de cidadãos e empresas relativamente à urgência de adotar comportamentos sustentáveis, reduzindo o consumo excessivo e aumentando a circularidade da economia. "Estamos habituados a usar e a deitar fora. Aliás, os dispositivos elétricos e eletrónicos estão desenhados para isso, é a chamada obsolescência programada", lamenta o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Nuno Lacasta.
Esta estratégia conhecida da indústria torna-se particularmente preocupante, assinala Pedro Nazareth, quando sabemos que "as nossas necessidades de consumo são satisfeitas por 9% de materiais de origem secundária ou reciclados".
No melhor cenário, em que todos os sistemas de recolha e separação de resíduos do mundo funcionam na sua máxima eficácia, este número sobe para 30%. "Isto tem de nos colocar em alerta, porque evidencia que para continuarmos a manter o estilo de vida que temos tido continuamos a extrair, todos os anos, 70% destas necessidades do planeta", afirma.
O crescimento abrupto da população mundial desde o início do século XX, que passou de cerca de dois mil milhões de pessoas para mais de sete mil milhões, coloca a nu a pressão exercida sobre o planeta. "Ao ritmo atual, não vamos ter recursos para tanta gente e o que isto significa é que vamos ter mais pobreza e privação, mais desastres naturais ou eventos extremos", sublinha Lacasta. Mas qual é, afinal, a solução para este problema crónico? Será preciso alterar a forma como consumimos e, sobretudo, como produzimos. Para Rita Pinho Rodrigues, responsável de comunicação da Deco Proteste, é importante que os cidadãos percebam que têm poder para mudar a atuação das empresas através das decisões que tomam. "O consumidor sente que deve ser mais exigente e criticar se um produto traz excesso de embalagem que não serve para nada, porque percebe que a sua contestação leva, muitas vezes, a que o produtor pense na forma como produz", defende.
Por outro lado, a participação em atividades de responsabilidade social pode ser, também, uma forma de agir e encarnar o papel de cidadão ativista. Desde a recolha de lixo na costa marítima à entrega de resíduos diferenciados, as opções são muitas e o poder de transformação está nas mãos de cada um. "Só mudamos se todos estivermos alinhados com essa mudança", diz Rita Pinho Rodrigues. O presidente da APA acredita ser necessário "assegurar que as empresas que gerem resíduos têm todos os incentivos para não colocar tudo em aterros por ser mais barato", mas também motivar empresas a reaproveitar ao máximo os seus produtos. "Temos casos de marcas que se preocupam em ter ciclos fechados de reaproveitamento de componentes e produtos", conta Pedro Nazareth, que realça o papel "muito importante" da regulação e imposição de metas ambientais. Recorde-se que o Governo se comprometeu a atingir a neutralidade carbónica até 2050, uma missão que envolve, entre outras ações, um forte crescimento da economia circular.
Este é o trabalho que o movimento Faz Pelo Planeta by Electrão quer potenciar através da comunicação de exemplos de pessoas e empresas que estão a fazer a diferença. "Queremos dar visibilidade a estes big changers e induzir uma corrente de exemplos que promovam a alteração na esfera da decisão do consumo", explica Nazareth. Além dos casos disponíveis no site da iniciativa, aberta à participação de todos, são promovidos seis debates em torno do ambiente ao longo dos próximos meses. O primeiro aconteceu na passada quinta-feira, em Lisboa, e o próximo está agendado para 20 de maio, com o tema "Desenvolvimento sustentável no pós-pandemia".