

“Uma saída abrupta”. É desta forma que os vários órgãos de comunicação social internacionais estão a apelidar o virar de costas de Carlos Tavares à Stellantis. Foi de rompante que o gestor bateu com a porta e deixou “com efeitos imediatos” a liderança da fabricante internacional automóvel que detém um portefólio de 14 marcas como a Fiat, a Peugeot ou a Citroën. A notícia foi avançada, no final do dia de ontem, pela própria companhia que informou aceitar a renúncia do português, de 66 anos, ao cargo de presidente-executivo.
O dia ficou marcado pela queda das ações do grupo nas bolsas de Milão e de Paris, com os investidores a castigar a empresa, o que resultou em tombos de 7% e 6%, respetivamente. As ações atingiram, desta forma, os valores mais baixos desde julho de 2022, refere a agência Reuters. No acumulado do ano o valor das ações recuou 45%.
A relação entre Carlos Tavares e a empresa franco-italiana-americana já tinha uma data de término. O plano era que o empresário desempenhasse funções até 2026, altura em que os seus 68 anos se assumiriam como uma “idade razoável” para a reforma, adiantou, no passado mês de outubro, o agora ex-CEO da fabricante automóvel. A Stellantis confirmou o alinhamento de intenções, referindo ter iniciado formalmente a escolha do sucessor.
Os 52 dias que separam os dois cenários foram pautados por “divergências de opinião”, apontou o diretor independente sénior da Stellantis, Henri de Castries, no comunicado oficial divulgado no domingo. A atual situação económica da empresa estará na origem das tensões. Recentemente, a Stellantis reviu em baixa a previsão de lucros para este ano, que justificou com o enfraquecimento da procura global e com a forte concorrência da China.
A operação nos Estados Unidos, explica a Reuters, tem sido o calcanhar de Aquiles na operação do grupo. O elevado stock parado, consequência do abrandamento da procura, levou a companhia a baixar os preços, acabando por penalizar o seu lucro operacional em 40% no primeiro semestre do ano.
À BBC, que se refere ao empresário português como um “implacável cortador de custos”, vários especialistas explicam que o atual quadro acabou por tornar a posição de Carlos Tavares insustentável. Hans Greimel, editor da Ásia na Automotive News, concorda que o lisboeta que se mudou para França aos 17 anos “era conhecido por ser capaz de recuperar empresas em dificuldade”, mas a queda drástica das vendas e dos lucros acabaram por impactar a liderança do CEO. “Os críticos dizem que ele estava a cortar demasiado nos custos, a atrasar produtos e a prejudicar a qualidade”, aponta.