O Admirável Mundo (Híbrido) Novo

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A pandemia veio provar que o trabalho remoto era possível, e que, pelo menos no imediato, não acarretava impacto significativo a nível de produtividade. Sobretudo para empresas de áreas mais tecnológicas, preparadas do ponto de vista de ferramentas informáticas e de processos de trabalho, a mudança para este novo regime foi feita com muito poucos percalços.

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Para além das questões práticas imediatas, relacionadas por exemplo com a adequação dos espaços que os trabalhadores tinham em casa, houve necessariamente um período de adaptação. Todas a áreas sem processos bem definidos, e que eram habitualmente resolvidas por interação informal e no momento, passaram a necessitar do agendamento de reuniões.

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Ao fim de pouco tempo, as vantagens do trabalho remoto eram já evidentes. O trajeto casa-escritório-casa foi reduzido a zero, e por isso, tirando os casos em que existiam filhos pequenos em casa, o tempo potencial de trabalho aumentou. E aumentou também o silêncio, e com ele a capacidade de concentração, que era sistematicamente posta à prova nos open-spaces das empresas. E por último sentiram-se os benefícios da flexibilidade com que se podiam tratar assuntos pessoais ou profissionais, com a sequência e a altura mais adequadas a cada tarefa ou compromisso.

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Mas nem tudo foi positivo. Muitos foram os trabalhadores que se limitavam a acordar e quase de imediato começavam a trabalhar, saltando da cama para a secretária, prologando depois o trabalho para além do horário normal. A flexibilidade fez que com que muitos não conseguissem delimitar, no espaço e no tempo, o ambiente de trabalho do pessoal ou familiar. Destes, uns conseguiram reagir e criar alguma disciplina de separação entre estas duas áreas. Outros não, e aumentaram os casos de stress ou mesmo esgotamentos.

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Em Portugal, com o passar do tempo, começaram as tentativas de retoma do trabalho presencial, sendo o modelo híbrido o mais escolhido. Foi implementado com muitas falsas partidas, fruto das sucessivas variantes do vírus e consequentes ondas da pandemia. A confusão legislativa relativamente a este assunto veio ainda complicar mais a situação, com uma tentativa desajustada de proteger os trabalhadores em regime remoto, que mais não fez do que criar barreiras adicionais à continuidade de um modo de trabalho mais flexível pretendido por trabalhadores, mas não necessariamente pelas empresas.

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Assim como demorámos a perceber as reais consequências do trabalho remoto, também o impacto do forçar dias fixos de trabalho no escritório vai demorar até ser percebido. Em áreas mais competitivas como as de desenvolvimento de software, essa imposição poderá levar a uma grande rotatividade, uma vez que não faltam alternativas mais flexíveis, muitas vezes completamente remotas, desde logo proporcionadas por empresas estrangeiras, ávidas do talento nacional.

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Não obstante as enormes vantagens do trabalho remoto, entendo que a prazo, se não existirem momentos em que as pessoas possam estar juntas presencialmente, haverá um impacto que, embora inicialmente difícil de medir, será certamente negativo. Desde logo porque, sendo que para equipas que já se conhecem do mundo presencial e estão rotinadas, o teletrabalho dê apenas continuidade a dinâmicas já existentes, os desafios na incorporação novos elementos acarreta desafios de outra magnitude.

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E depois há a cocriação. Como processo de desenvolvimento de produtos ou soluções, esta tem na sua génese a noção de inovação colaborativa, segundo a qual as ideias são melhoradas por um conjunto de pessoas, muitas vezes oriundas de diferentes áreas da organização, através da partilha e da interação. A existência de reuniões informais, encontros casuísticos ou conversas que se prolongam para além das quatro paredes onde o tópico foi inicialmente discutido, favorece de sobremaneira este tipo de criação.

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Não sendo impossível, é muito difícil providenciar esses momentos de cocriação em ambientes totalmente remotos. Desde logo porque o facto de todos os intervenientes terem que estar todos sentados à secretária em frente ao computador e com auscultadores acarreta um certo formalismo. Depois, porque não existe a possibilidade de, uma vez terminada a reunião, se continuar a discussão no corredor, na cafetaria ou no restaurante à hora almoço. E por último, há a questão das enormes limitações em termos de linguagem não-verbal. As expressões faciais, a postura corporal, os gestos, o contacto visual, ou mesmo o som, são tudo formas de comunicação não verbal fortemente limitadas pelo trabalho por videoconferência.

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Os modelos híbridos parecem ser os mais indicados para se conseguirem reunir as vantagens dos modos remoto e presencial, mas obriga a planeamento e adaptação. É necessário acautelarem-se em primeiro lugar os planos horários, já que a imposição de dias fixos de trabalho, feita muitas vezes sem olhar à especificidade das áreas, equipas ou funções, terá um impacto imediato na motivação e produtividade. Da mesma forma, sem a adaptação dos espaços de escritório, haverá também consequências negativas, já que estes iriam transformar-se em autênticos call-centers com muitas pessoas fisicamente no escritório, mas em reunião com outras que estão em casa.

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Não havendo verdades absolutas sobre este tema, há duas que parecem incontornáveis. O modo muito mais flexível de trabalho veio para ficar, e serão muito poucas as empresas capazes de funcionar a médio-longo prazo em modo totalmente remoto. Importa por isso encontrar os processos mais adequados a cada realidade, adaptando equipas, processos, ferramentas e espaços. Só assim se conseguirá obter o melhor de dois mundos, permitindo conjugar de forma mais harmoniosa as vidas pessoal e profissional de cada pessoa, e continuando a dotar as empresas portuguesas do melhor talento possível, não comprometendo a sua competitividade.

Francisco Almada Lobo, co-fundador e CEO da Critical Manufacturing

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