O Alqueva foi um íman para investimento estrangeiro no Alentejo 

O Alentejo beneficiou de um investimento público que acabou por atrair mais de mil milhões de euros em investimento privado. A região acredita estar no caminho da transformação tecnológica.
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Apesar de todo o ruído gerado em torno do investimento público realizado no Alqueva, os empresários acreditam hoje que foi um projeto que acabou por trazer frutos. "O Alqueva foi um íman, um chamariz, para trazer investimento estrangeiro ao Alentejo. Isto é uma novidade no setor agrícola português. Primeiro chegaram os espanhóis, que estão mais próximo, mas também atraiu investidores dos Estados Unidos, da África do Sul, da Alemanha, da Noruega", refere José Pedro Salema, presidente da EDIA - Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, durante o debate Portugal que Faz, realizado em Évora, na passada quinta-feira.


Esta nona edição do ciclo de conferências promovidas pelo Novo Banco, destinada a ouvir os problemas sentidos pelos empresários nesta fase da pandemia, realizou-se no PACT - Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia, e o arranque dos trabalhos foi feito pelo anfitrião, Soumodip Sarkar, presidente desta instituição. António Ramalho, CEO do Novo Banco, foi o orador principal, a que se seguiu, por videoconferência, Carlos Andrade, economista-chefe do banco, encarregue de fazer uma análise regional. No painel do debate, moderado por Joana Petiz, diretora do Dinheiro Vivo, participaram, além de José Pedro Salema, Rui Espada, presidente do NERE - Núcleo Empresarial da Região de Évora, Filipe Pombeiro, presidente do NERBE- Associação Empresarial do Baixo Alentejo e Litoral e Jorge Pais, presidente do NERPOR - Núcleo Empresarial da Região de Portalegre.


"Até há uma década o Alqueva ainda era visto como um elefante branco e dizia-se que não havia agricultores interessados no regadio. Hoje temos 10% a 15% da área total agrícola em regadio, mas esta é responsável por criar tanta ou mais riqueza e emprego do que os restantes 85%", disse ainda a propósito José Pedro Salema. O responsável diz que o setor agrícola foi muito resiliente à pandemia e que os investimentos não pararam: a área inscrita para regadio cresceu cerca de sete mil hectares durante esta fase. Esclarece ainda que apesar do investimento estrangeiro realizado, a maior parte dos negócios ainda está na mão dos portugueses e que, apesar das críticas à cultura intensiva, ainda há muito Alentejo por explorar.


Filipe Pombeiro, por sua vez, refere que é necessário ter atenção ao que é investimento público produtivo. "Existem equipamentos públicos que nunca atraíram ninguém, mas também temos investimentos públicos que geram investimento privado, como é o caso do Alqueva. Os cerca de 3,2 mil milhões de euros de investimento público trouxeram cerca de mil milhões de investimento privado. É este o tipo de investimento que nos interessa", sublinha. Ainda sobre esta questão, António Ramalho gracejou dizendo que "se calhar, temos de criar um verbo novo: "alquevar". Devíamos "alquevar" o país. Alqueva provou que é o sucesso do investimento público que traz investimento privado com capacidade transformadora. Isto trouxe muitas dúvidas inicialmente, mas "alquevar" é o que precisamos fazer agora com estes fundos europeus". Diz ainda que esta bazuca financeira é a grande oportunidade - provavelmente a última - que

Portugal tem para encontrar as nossas vantagens competitivas e transformar regiões. "Uma das chaves para sair da crise é conseguir responder à moratória do investimento, que é o que me preocupa mais. Neste momento, todos têm dúvida se devem ou não investir, e ter investimento publico sem ter investimento privado em simultâneo é apenas despesa", diz António Ramalho.

Silicon Valley da Europa
Unidos para discutir o futuro do Alentejo - região que agrega quatro zonas, com grande diversidade, o Alto Alentejo, o Alentejo Litoral, o Alentejo Central e o Baixo Alentejo - os empresários acreditam que o passado pode unir-se ao futuro, e apostar na inovação dos setores tradicionais. "Está a nascer um novo Alentejo, o Alentejo da tecnologia, da inovação e do conhecimento. Acredito que temos muito para oferecer e podemos ser o novo Silicon Valley da Europa", referiu Soumodip Sarkar, presidente do PACT - Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia, na sessão de abertura. Com ele concordam os participantes neste debate. "O Alentejo é hoje muito diferente e o setor agroindustrial tem já uma forte integração tecnológica, o que vai ser decisivo para o futuro da região", referiu a propósito Filipe Pombeiro, da NERBE, núcleo que investiu recentemente na criação da CIBT NERBE, um projeto para incubação e instalação de empresas de base tecnológica. Segundo este responsável, as incubadoras de base tecnológica que se estão a instalar nesta zona vão permitir a fixação de novas empresas, novas ideias - fundamentais para fazer face ao período da pandemia -, e por outro lado vão capacitar as empresas para que cresçam com incorporação tecnológica, que é decisiva para o combater a desertificação do Alentejo.

Um dos problemas da região - que é igualmente comum a muitas outras áreas do interior do país - prende-se com a demografia adversa e com uma população envelhecida. Segundo Jorge Pais, o crescimento económico só acontecerá com a aposta na vertente empresarial e para que isso aconteça há que combater as fragilidades da região. "Temos de conseguir atrair e fixar novas empresas, para também atrair e fixar pessoas com as competências adequadas. Quanto mais qualificados são os nossos jovens mais sentem necessidade de sair da região", explica. Entende que o Alto Alentejo necessita conseguir dinamizar o seu tecido empresarial e para isso há que criar um ambiente favorável para atrair empreendedores e que isso deveria partir da melhor distribuição dos investimentos públicos, nomeadamente na construção de uma rede viária principal que passe por Portalegre. "Se não distribuirmos melhor os investimentos públicos, a coesão nunca vai existir", afirma.

Rui Espada, do NERE, refere que o tecido empresarial da região de Évora é constituído essencialmente por pequenas e microempresas que necessitam de apoio para fazer face aos desafios, nomeadamente para enfrentar as exportações. Entende também que o plano de desconfinamento já deveria ter sido apresentado, pois as empresas já não têm onde ir buscar mais dinheiro e que, com o fim das moratórias, algumas terão mesmo de fechar portas. Apesar das adversidades, os empresários da região não desistem e até foram feitas 15 candidaturas de autoemprego ao IEFP só durante o passado mês de janeiro. Para este responsável, os investidores até têm interesse na região, mas depois debatem-se com a falta de recursos humanos. Afirma que, por exemplo, não há portugueses para trabalhar na agricultura e que os trabalhadores que existem vêm de de outros países.

Os quatro "Alentejos"
"Esta é uma economia que vale 4,3% do PIB e tem crescido ligeiramente acima da média nacional", refere Carlos Andrade na sua apresentação sobre a região. Explica que há grandes disparidades nestes quatro "Alentejos", mas há uma característica distintiva desta região como um todo: o peso do setor agrícola é muito acima da média nacional tal como o peso da agroindústria. Esta é também uma região com potencial de crescimento no setor do turismo, que tem capacidade instalada, quer em alojamento local quer em camas de hotelaria tradicional. Cerca de 74% das dormidas têm origem no mercado doméstico, o que prova que ainda se pode crescer no mercado internacional. "O Alqueva, por exemplo, apenas tem um hotel com frente de água. É ainda possível crescer e manter a identidade local", explica, a propósito, José Pedro Salema.


1. O painel contou com José Pedro Salema (Alqueva), Jorge Pais (NERPOR), Filipe Pombeiro (NERBE), Rui Espada (NERE), além do CEO do NB, António Ramalho, com moderação de Joana Petiz (diretora do DV). 2. José Pedro Salema, presidente da EDIA. 3. António Ramalho, presidente do Novo Banco.
Fotos: Paulo Spranger /GI

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