O apelo de Carlos Moedas: "Portugal precisa de inovadores"

Para o presidente da Câmara de Lisboa, a cidade (e o país) tem de dar as condições necessárias "aos jovens, aos sonhadores", para que consigam fazer dos seus sonhos produtos e serviços concretos. São eles que trazem crescimento, produtividade, competitividade e riqueza.
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Em resposta à questão "O futuro é dos fazedores?", a resposta de Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, é esclarecedora: o futuro está nos inovadores. E porquê? "Porque sem esses inovadores não há crescimento, não há produtividade, não há competitividade não há produção de riqueza." Carlos Moedas acredita que "são os inovadores o futuro do nosso país, as novas gerações de inovadores, que são pessoas realmente muito diferentes", frisou na conferência do 10.o aniversário do Dinheiro Vivo.

O conceito vai além do de fazedores: são pessoas que estão no meio de três personalidades diferentes: os fazedores, os pensadores e os sonhadores. São "aqueles que conseguem estar exatamente no meio deste triângulo". E porquê agora? Porque, explica Carlos Moedas, historicamente a Europa sempre deu mais valor aos que eram puramente pensadores, enquanto os Estados Unidos "davam muito mais importância aos fazedores ou aos sonhadores". E é essa diferença que, acredita o presidente da Câmara de Lisboa, tem colocado entraves ao desenvolvimento da inovação na Europa. "Não soubemos ver que os nossos pensadores, só com essa característica, não conseguiam mudar o mundo." No entanto, como se vê muitas vezes nos Estados Unidos, ser apenas fazedor também não chega.

"A minha experiência de cinco anos de Comissão Europeia e de inovação" mostrou que realmente os melhores são os que conseguem estar "exatamente no centro deste triângulo". Porque para além de sonharem, conseguem transformar o sonho em algo muito concreto. Algo que, para Moedas é muito difícil. E é precisamente a parte "que nos falta em Portugal", referiu, acrescentando que "temos excelentes sonhadores, temos excelentes pensadores, mas muitas vezes faltam-nos esses fazedores".

No decorrer dos vários encontros com fazedores, Carlos Moedas fez por isso sempre questão de lhes perguntar o que, para eles, era mais difícil. "Se era o sonho, se era o pensar, a análise, o poder analítico ou se era verdadeiramente ser fazedor." E ao contrário do que pensava, que a resposta estaria na análise, ouviu sempre que "o mais difícil era fazer". E recordou um "miúdo de 20 anos do Uganda" que "conseguiu fazer uma coisa extraordinária" e fazer uma diferença estrondosa com total simplicidade: percebeu que demasiadas mulheres no Uganda morriam no parto e pensou que se conseguisse ligar o telemóvel ao aparelho que se utilizava para ouvir o movimento do bebé na barriga da mãe podia enviar esse som para um hospital e com isso salvar muitas vidas. Foi uma das inovações mais interessantes que Moedas ouviu em cinco anos de Comissão Europeia. E é isso que o autarca quer trazer para Lisboa.

"A capacidade de não só termos os sonhadores e, de certa forma, os pensadores, mas trazer também os fazedores." E é aqui que entra a fábrica de unicórnios que tantas vezes referiu desde que iniciou campanha pela Câmara Municipal de Lisboa. "Para inovar, precisamos dos fazedores", e estes precisam de "disciplina, de fazer aquilo que os outros muitas vezes não conseguem com a ajuda daqueles que já fizeram". Para se perceber melhor, o autarca aconselha a olhar para a inovação como uma fábrica, como uma cadeia de montagem. Nessa perspetiva, "eu consigo pegar nas pessoas que têm grandes ideias, que são pensadores, que têm grande capacidade analítica, e expô-las àquilo que chamo cadeia de inovação". Pôr a falar quem sabe, para passar do sonho ao produto.

No palco do Estúdio Time Out do Mercado da Ribeira, o presidente da Câmara de Lisboa fez um paralelismo entre as duas crises que o país atravessou no espaço de uma década anos. Relembrou o sofrimento dos portugueses em 2012, quando atravessávamos uma profunda crise económica. Mas ao mesmo tempo realçou "o orgulho que devemos ter por termos conseguido dar a volta". E se vivemos hoje uma crise pandémica, não devemos esquecer "o que o país foi capaz de fazer": "Fomos capazes de dar a volta num momento em que ninguém acreditava."

Se há dez anos o problema estava longe de ser apenas nós não acreditarmos - "eram os outros, que estavam lá fora, que também não acreditavam em nós" -, todo o trabalho feito pelo país e pelas pessoas para voltar a dar credibilidade a Portugal "foi extraordinário". Para o autarca, na última década, o país provou que "conseguia dar a volta, conseguia sair da crise, e conseguia sair dessa crise reforçado". E hoje, a enfrentar a pandemia, não devemos "esquecer esse trabalho".

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