Numa edição recente do podcast "Pivot", Kara Swisher e Scott Galloway comentavam como Elon Musk é o bilionário genial que diz as coisas mais idiotas de que há registo. As suas capacidades são inegáveis. A perseverança como empreendedor e visionário resultaram em várias das mais consequentes empresas do nosso século, da Tesla à SpaceX, e a sua capacidade de fazer acontecer coisas que parecem impossíveis impressiona.
O plano para colonizar Marte é ambicioso e, provavelmente, vai concretizar-se. A forma como se tornou no homem mais rico do mundo (274,3 mil milhões de dólares, de acordo com o ranking que a Forbes actualiza diariamente) é o tipo de história que inspira gerações. Tem uma influência incomparável na indústria tecnológica, espacial, e na cultura que idolatra os bons rapazes de Silicon Valley.
E, no entanto, apresenta uma ausência de filtro que é desconcertante. Não se trata apenas de irreverência. O espanto não é que Elon Musk diga, a todo o momento, o que lhe vai na real gana. O espanto é como é que a real gana de alguém tão inteligente e influente gera pensamentos do calibre do que ele partilha.
Por exemplo: desafiou Vladimir Putin para um combate corpo a corpo de forma a resolver a guerra na Ucrânia. Partilhou um meme em que John Lennon canta sobre a paz e é morto a tiro por um boneco. Outro em que mostra uma retrete como a cabine telefónica de 2022. Outro em que a sua cara está sobreposta ao macaco Rafiki de "O Rei Leão." Os exemplos são numerosos e cada um mais estranho que o outro. Elon Musk tem cinquenta anos e zero preocupações com sobrolhos levantados.
No entanto, o que aconteceu na última semana é bastante mais relevante que o estilo de publicações questionáveis do bilionário. A mais recente tropelia foi aceitar e quase de imediato voltar atrás e recusar um assento no conselho de administração do Twitter, depois de se ter tornado no maior accionista individual da rede social. Na notícia que escreveu sobre o assunto, a Associated Press chamou-lhe "bilionário mercurial" e penso que está encontrado o epíteto mais acertado de sempre para caracterizar Elon Musk.
Esta designação descreve alguém que muda constantemente de ideias e tem um temperamento volátil, caprichoso, imprevisível e errático. Não são características inéditas em pessoas com muito dinheiro e poder, mas Musk é mais que um rico pirrónico.
Dias depois de adquirir 9,2% do Twitter por 2,89 mil milhões de dólares, o empresário usou a sua poderosa conta na rede social - com 81,4 milhões de seguidores, muito mais que qualquer outro CEO - para questionar se a mesma estava a morrer. Colocou a questão apontando que algumas das contas com mais seguidores, como a de Barack Obama, Taylor Swift e Justin Bieber, praticavam não publicavam nada há meses. E ele, que é um ávido utilizador do Twitter, possivelmente não consegue conceber como nem porquê.
A reversão da sua intenção de tomar assento no conselho de administração aconteceu depois deste questionamento estranho, o que deixou ainda mais incertezas sobre porquê é que o patrão da Tesla decidiu investir no Twitter.
Mas os receios são claros: dadas as bizarras teorias conspirativas que vai lançando de tempos a tempos, existe a preocupação de que Elon Musk queira forçar mudanças drásticas na rede social. E isto poderá significar um retrocesso nas decisões que têm sido tomadas para limitar a disseminação de desinformação em relação à covid-19, as vacinas, as eleições, e o abuso da rede por utilizadores que incitam à violência, racismo, xenofobia e outros.
"A liberdade de expressão é essencial para uma democracia que funciona. Acreditam que o Twitter adere de forma rigorosa a este princípio?", questionou Musk numa sondagem publicada a 25 de Março. 70,4% dos que responderam disseram que não, naquilo que pareceu um aceno aos que se queixam de que o Twitter censura conservadores e beneficia os progressistas.
A questão é bastante desonesta. Segue uma falácia dos conservadores segundo a qual toda e qualquer consequência às barbaridades que dizem é um ataque à sua liberdade de expressão. Esta liberdade, impressa na Constituição norte-americana, é garantida em relação à perseguição governamental: ninguém pode ser perseguido pelo governo pelo que diz.
Mas não isenta as pessoas de consequências, muito menos de aderirem aos termos de empresas privadas. Insinuar que as regras do Twitter estão a danificar a democracia é um piscar de olho aos negacionistas da covid, aos apologistas do 6 de Janeiro, e aos putinistas de algibeira.
Isso explica que personalidades ingloriosas como a congressista Lauren Boebert tenham ficado a salivar com a chegada de Musk, enquanto os empregados do Twitter estão em pânico com o que ele pode fazer. Uma coisa é certa: ao não aceitar um assento no conselho de administração, Musk não fica vinculado a uma cláusula que limita a 14,9% a participação accionista dos directores. E isso significa que, se lhe der na real gana, pode tentar uma aquisição hostil da companhia.