O boom do café

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A etimologia da palavra oferece pistas acerca da história e da trajetória daquela que é, depois de água e chá, a bebida mais popular do mundo. Café do termo holandês "koffie", que, por sua vez, deriva da palavra turca "kahve", que vem do árabe "gahwah" - que, segundo me explicaram, significa "de cor escura". Acredita-se que a planta provém da Etiópia e do Sudão, sendo que os primeiros relatos de infusões de café a serem consumidas datam do século XV, no Iémen, onde chegaram levados por mercadores da Somália.

A sua chegada à Europa deu-se em 1526, aquando da invasão da Hungria. Ao longo das seguintes décadas, alcançou quase todo o continente e a sua popularidade foi crescendo. Em 1675, já havia em Inglaterra mais de 3 000 coffee houses, que, gradualmente, se foram tornando locais de convívio onde eram discutidos os temas da época - um costume que poderá ter contribuído para a divulgação dos ideais do Iluminismo.

Os exploradores europeus acabaram por levar o café até aos quatro cantos do mundo, durante a expansão marítima dos séculos XVI e XVII, percebendo que os solos e climas de algumas das zonas da América do Sul e da Ásia eram perfeitos para a cultivação das plantas. Atualmente, o Brasil é o maior produtor do mundo, tendo uma produção anual de mais de 2.5 milhões de toneladas, seguido pelo Vietname e pela Colômbia, com várias outras nações a contribuir também para alimentar a crescente procura mundial pela bebida.

A expansão mundial do café e a forma como esta foi abraçada por diferentes culturas simboliza o espírito da globalização. Ironicamente, a natureza global do negócio deixou-o exposto a vários imprevistos que, ao longo dos últimos meses, causaram uma subida dos preços até a um nível próximo do máximo atingido em 2014. À medida que a economia mundial vai recuperando do choque causado pelo coronavírus, os importadores de café de todo o mundo estão a ter dificuldades em movimentar o negócio, numa altura em que vários contentores estão deslocados, o que está a provocar um pesadelo logístico, bem como um aumento nos custos de transporte. Esta dinâmica também não tem sido beneficiada pelo mau tempo no Brasil, com a geada a danificar grande parte das colheitas locais, nem pela agitação política na Colômbia, onde o transporte de mercadorias tem sido interrompido, com manifestantes a bloquearem as estradas.

Tudo isto resultou numa subida dos preços ao produtor, que, no final de julho já ia nos 60% comparativamente ao início do ano. Porém, estes preços ainda não chegaram aos consumidores, ou, pelo menos, não na sua totalidade. Uma vez que os grossistas tendem a utilizar os mercados de futuros para se protegerem da volatilidade na cotação do produto, pode levar até nove meses para que os preços no retalho sejam impactados por esta escalada, que se deu principalmente durante o mês de julho.

Assim, a menos que as circunstâncias se alterem de forma inesperada, é previsível que o preço da bica venha a subir num futuro não muito distante.

Ricardo Evangelista, analista Sénior e Diretor Executivo da ActivTrades Europe SA.

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