Pois é o PMDB quem governa o país sob a liderança interina de Michel Temer, o tal a quem um dia chamaram “mordomo de filme de terror” e acusaram de práticas satanistas, desde a passada sexta-feira 13.
Na área económica, o governo vem merecendo o benefício da dúvida: foi escolhida uma equipa supostamente capaz de sanear as desordenadas contas públicas deixadas por Dilma Rousseff, do PT.
No plano político, porém, o governo, por ter sido eleito por meros 422 votos de congressistas num país de 200 milhões de habitantes, não teve direito a estado de graça.
Mas também não se ajudou: não só ignorou pastas como a da Igualdade Racial, Desenvolvimento Social e Combate à Fome e a das Mulheres, Juventude e Direitos Humanos, como extinguiu o Ministério da Cultura, presente no executivo desde a redemocratização, em 1985 - depois de protestos de artistas o presidente em exercício recuou e tornou-o o 25º ministério.
Além disso, o executivo é composto por gente com longo currículo no poder mais podre do Brasil, o legislativo, 13 deles sob suspeita de improbidade administrativa ou irregularidades nas contas (lembram-se do motivo do impeachment de Dilma?) e três investigados na Lava-Jato. Ah, e são 25 homens.
O sucessor de Dilma, quando se apercebeu da falta de uma representante do “mundo feminino”, para usar a sua expressão, primeiro pôs as culpas no batalhão de aliados de circunstância que nomearam só homens para os ministérios que lhes couberam no loteamento governamental, depois lembrou que a sua chefe de gabinete é mulher e até participa dos conselhos de ministros e, finalmente, sublinhou que a primeira-dama, descrita numa revista como “bela, recatada e do lar”, dará contribuições de cunho social.
Como cereja no topo do bolo, Temer ainda chamou o deputado mais fiel a Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara dos Deputados, para servir de representante parlamentar do governo. Sucede que André Moura, que pertence ao PSC, o mesmo partido de Jair Bolsonaro, aquele que votou pelo impeachment em homenagem a um torturador da ditadura militar, é acusado, entre outros crimes, de sequestro e tentativa de homicídio.
Se passarmos por cima do discurso do ministro da Saúde, cuja campanha foi paga por uma empresa de planos médicos, a sugerir a diminuição dos serviços gratuitos da área, e se esquecermos que Temer dia sim, dia sim fala na insolvência da Previdência, mesmo tendo pedido a reforma, de quase 2500 euros, aos 55 anos, o pior momento do governo coube a Romero Jucá, ministro do Planeamento.
Pois Jucá, que conseguiu ser sócio da ditadura, de Sarney, de Itamar, de Fernando Henrique Cardoso, de Lula e de Dilma antes de se assumir como braço-direito de Temer, é um dos tais investigados na Lava Jato (e em muitas mais operações não tão mediáticas).
Segunda-feira foi apanhado em gravações, datadas de março, semanas antes da votação do impeachment, a dar a entender em conversa com outro suspeito que só um novo governo – o dele e do amigo Temer - poderia deter a Lava-Jato.
Acabou demitido.
Jucá, para quem tem o prazer de não conhecer, é apresentado por Roberto Pompeu de Toledo, colunista da Veja, publicação mais pro-impeachment do Brasil. “Ele não se distingue como orador e carece de magnetismo pessoal. Nunca se ouviu dele uma ideia inovadora ou um discurso coerente sobre os rumos nacionais. Representa um estado pequeno [Roraima] e, fora do mundinho da política, poucos ligarão o nome à pessoa. Uma hipótese é que o seu sucesso repouse exatamente na soma de tais deficiências”.
Jucá é portanto a representação, em versão carne e osso, do PMDB. E como o seu partido também se escreve com apenas quatro carateres.
João Almeida Moreira escreve todas as quartas-feiras no Dinheiro Vivo.