O cemitério do streaming

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A Quibi durou seis meses, apesar de um investimento superior a mil milhões de dólares. A TVision esteve no ar cinco meses. A Netflix perdeu 200 mil assinantes no primeiro trimestre, revertendo uma subida sequencial que durava há mais de dez anos. E no final da semana passada, soube-se que a novíssima plataforma CNN+ seria encerrada menos de um mês depois de ser lançada.

Há uma crise absolutamente previsível neste mercado que tanto subiu durante a pandemia e que até fez história nos Óscares em Março. É que, tal como apontado há uns meses, o mercado está saturado e os dias não esticaram. Há mais de 200 plataformas a oferecer variações do mesmo tipo de serviço - e simplesmente não há olhos para tanto streaming.

O que aconteceu com a Netflix tem várias origens e não significa que a gigante esteja em perigo de desligar o sinal, tal como aconteceu com a Quibi, TVision, CNN+ e outras tentativas de capitalizar no declínio da televisão por cabo e dos canais generalistas.

Na origem dos resultados que Wall Street considerou catastróficos - os títulos da Netflix desvalorizaram mais de 30% após a divulgação do relatório - está uma confluência de factores. Para começar, o fim das restrições ligadas à pandemia tirou as pessoas do sofá e levou-as para as ruas e de volta a outras formas de entretenimento.

Depois, há uma inflação galopante que está a obrigar as famílias a repensarem os seus gastos e prioridades orçamentais. Há também o efeito da partilha de passwords, que a Netflix acredita que atinja em torno de 100 milhões de lares além dos 221 milhões de assinantes. E também o efeito da guerra na Ucrânia: a retirada do serviço da Rússia resultou na eliminação de centenas de milhares de assinaturas.

Também é preciso ter em conta os avanços de concorrentes que recentemente aceleraram o crescimento, como a Apple TV+, Hulu, Amazon Prime, HBO Max e Disney+. À medida que os utilizadores experimentam vários pacotes de streaming, haverá mais oscilações e menos fidelidade. Uma série de sucesso ou alguns filmes originais exclusivos podem significar o desvio da Netflix para outra plataforma durante alguns meses. Talvez os utilizadores voltem por algum tempo e repitam ao longo do ano. Tornou-se mais difícil prever o comportamento dos assinantes.

O que está bastante claro é que não há espaço para muitos mais serviços de streaming individuais com enorme sucesso ao mesmo tempo. Talvez haja nichos interessantes - uma série que atrai um segmento para a Paramount+, uma promoção que torna a Peacock incontornável durante algum tempo.

Mas não é possível achar que dezenas de serviços vão todos continuar a crescer em paralelo aos milhões de assinantes a cada trimestre. O preço individual é sempre razoável - 5, 6, 7, 10 euros ou dólares por mês. A soma de vários é que se torna insustentável, além de não ser prática. Para ver o novo "The Batman" assina-se o HBO Max, e para assistir a todos os episódios de "We Crashed" vamos para a Apple TV+. "Inventando Anna" está na Netflix, mas "Moonknight: Cavaleiro da Lua" está no Disney+.

J.B. Perrette, que lidera a unidade de streaming da Discovery, resumiu esta parte do problema no comunicado em que foi anunciado o encerramento da CNN+. A Discovery fundiu-se com a WarnerMedia, casa-mãe da CNN, e o encerramento do novo serviço de streaming aconteceu no rescaldo do processo.

"Num mercado complexo do streaming, os consumidores querem simplicidade e um serviço tudo-em-um, que oferece melhor experiência e mais valor que ofertas individuais e um modelo de negócio mais sustentável para a empresa", disse Perrette.

Está-se mesmo a ver o caminho que isto vai seguir. Com a rentabilização de tantas plataformas a ser cada vez mais difícil, haverá uma consolidação de pacotes. A Disney já o faz, tal como outros conglomerados. A ironia é que os serviços de streaming vieram libertar os consumidores dos pacotes de televisão caros e com imensos canais que ninguém vê, mais a obrigação de assinar extras para ter acesso a conteúdo premium.

Uma consolidação de streaming em pacotes rapidamente poderá resultar em preços similares aos do cabo, derrotando o propósito inicial. A simplificação poderá não ser melhor para os clientes. E certamente não parece ser boa para os conteúdos arrojados e de nicho que tornaram os serviços de streaming tão diferentes e inovadores no início.

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