“No último meio século, os economistas descobriram vários problemas que restringem os graus de liberdade da política económica”, escreveu o colunista no seu aguardado artigo do jornal Folha de S. Paulo na edição de 14 de Março.
Interessa menos aqui a frase e mais o autor dela: é Antonio Delfim Netto, 89 anos, uma daquelas figuras que, por estar em todas, dizem muito sobre os seus países – em Portugal haverá algumas também.
Iniciado na vida pública no longínquo 1959, como membro da equipa de planeamento do governo de São Paulo, tomou posse em 1967 como segundo Ministro da Fazenda, ou seja, das Finanças, do período da ditadura militar. Desse ano até 1973, Delfim Netto protagonizou o que foi chamado de “milagre económico”, quando o Brasil cresceu ano após ano quase sempre em torno de dois dígitos.
Mas em paralelo ao “Milagre Económico”, o país viveu os anos mais sangrentos da ditadura, quando o Ato Institucional Número Cinco (AI5), emitido pelo presidente Costa e Silva em 1968, determinou a perda de mandato de parlamentares contrários ao regime, intervenções militares nos estados e nos municípios e a banalização da tortura como instrumento político. Delfim Netto assinou o AI5 e nunca se arrependeu porque, notou, sem ele o “Milagre Económico” não teria sido possível.
Após um intervalo como embaixador em Paris, de 1975 a 1978, em que foi atingido por suspeitas de corrupção, que sempre negou, a propósito de um suposto suborno de seis milhões de dólares recebido de um banco francês a troco de favorecimento numa obra no Brasil, voltou à cúpula do governo.
Foi Ministro da Agricultura por meses até assumir o Ministério do Planeamento e deitar por terra a sua fama de “milagreiro”: de 1979 a 1985 contribuiu para a falência económica – porque a falência moral sempre existiu – do regime militar. “O povo está a fim da cabeça do Delfim”, gritava-se nas ruas. Nos jornais, a sua facilmente identificável figura física, gordo e de óculos profundos, foi a preferida dos cartunistas da época.
Em democracia, tornou-se deputado, desde 1987 a 2007, assinando a Constituição de 1988. E trocou o ARENA, o partido da ditadura entretanto extinto, pelo PDS, depois pelo PPB, depois pelo PPR, depois pelo PP e, finalmente, pelo PMDB de Michel Temer e companhia.
Como o consulado do PT, de 2003 a 2016, foi marcado na área financeira pelo desenvolvimentismo, a mesma corrente económica de forte intervenção estatal ligada ao “Milagre” da ditadura, Delfim aproximou-se do então presidente Lula da Silva e do então guru da área Antonio Palocci. Mais tarde, foi fiel defensor de Dilma Rousseff, que o consultava sempre que possível.
Também Temer, depois de ascender ao poder por troca com Dilma, teve em Delfim um apoiante de todas as horas das suas reformas liberais.
Delfim foi, portanto, desenvolvimentista no passado e liberal no presente. Esteve ao lado de Lula e Dilma em democracia, mesmo sendo um anti-comunista ferrenho na ditadura. E com Temer, mesmo tendo em conta que foi ele quem depôs a amiga Dilma. E assinou, a Constituição Democrática de 1988 com a mesma convicção com que havia assinado o AI5, o ato mais simbólico da ditadura.
Como se disse, por estar em todas, Antonio Delfim Netto, de 89 anos, é mesmo daquelas figuras que dizem muito sobre os seus países – em Portugal também haverá algumas.
E no dia 9 de Março, Delfim provou que está mesmo em todas ao ter as contas bancárias bloqueadas por ordem do juiz Sergio Moro, no âmbito da Operação Buona Fortuna, a 49ª etapa da Lava-Jato: é suspeito de ter recebido quase quatro milhões de euros do consórcio de empreiteiras envolvido na construção da usina de Belo Monte.
No dia 14, a sua coluna na Folha, citada no início deste texto, era por isso muito aguardada. Mas ele escreveu-a como se nada tivesse acontecido.