O dinheiro não traz felicidade. E o inverso?

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Quem conhece as duas realidades sabe que o velho cliché ainda

cola: em Portugal há uma inconsciente tendência para a depressão e

no Brasil há uma alegria tendencialmente inconsciente. E isso não é

o estado da economia que muda - mas pode ajudar a mudar o estado da

economia

Os portugueses, soterrados debaixo de sete palmos de crise, andam

deprimidos. Os brasileiros, primeiros dos BRIC na ordem alfabética,

andam alegres. Nada de anormal, estamos em Março de 2012.

Mas recuemos, por exemplo, 20 anos. Em Março de 1992, o dinheiro

jorrava de Bruxelas e Portugal vivia o auge da era do betão

cavaquista; no Brasil, os pobres eram muitos e muito pobres, os menos

pobres tinham as contas bancárias confiscadas pelo governo e

cheirava a impeachment de Collor por todos os lados. Não há escalas

objetivas como a de Richter para medir mas, a olho nu, quem estava,

mesmo assim, mais deprimido nessa altura? Os portugueses. Quem estava

mais alegre? Os brasileiros.

Se calhar, se viajássemos até 1822, ano em que os segundos se

tornaram independentes dos primeiros, a situação seria parecida.

Provavelmente há 600 anos, ainda Pedro Álvares Cabral não tinha

nascido, já a alegria tupiniquim superava a do Portugal do Mestre de

Avis.

Não foi por acaso que Agostinho da Silva cunhou o célebre "um

brasileiro é um português à solta" e antes dele já Eça de

Queiroz havia definido os brasileiros como "portugueses dilatados

pelo calor".

As causas para a alegria brasileira em contraponto com a sisudez

portuguesa são do domínio dos sociólogos. Uns dizem que resulta do

facto da Europa ser antiga e pesada e a América jovem e leve. Há

quem defenda que como uns estão virados para o atlântico norte e

hostil se tornaram nostálgicos e que os outros, de caras para o

atlântico sul e quente, se suavizaram. Outros partem da simples

constatação de que o chão de Portugal é seco e o do Brasil

fértil. E há a hipótese que aponta o sol como responsável pela

diferença da gente... A chuva não é certamente.

Mas num momento em que o conceito da Economia da Felicidade saltou

dos livros de autoajuda para as teses académicas de todo o mundo -

os americanos estudam-no até à exaustão (ou seja, até ao Nobel),

consta que o longínquo Butão o usa como mantra económico e há até

um português doutorado no assunto - essa diferença ganha

atualidade.

O bem estar inato da população pode alavancar a economia? Até

ao século 21 a alegria brasileira não se traduziu em saúde

económica, é certo, mas agora, defendem teorizadores, o estado de

espírito que melhor define o Brasil pode estar diretamente ligado ao

crescimento. É um conceito abstrato mas a ter em conta sobretudo

pela eternamente deprimida alma portuguesa.

E a constatação de que o cliché antigo, mais antigo do que Eça,

pode ter causas sociológicas e consequências económicas: os

portugueses tendem à depressão, a curti-la, a cuidá-la; os

brasileiros tendem à alegria, a otimizá-la, a expandi-la. E isso

não é o estado da economia que muda - mas pode mudar o estado da

economia.

Jornalista

Crónicas de um português emigrado no Brasil

Escreve à quarta-feira

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