O efeito do YouTube

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Há quase 17 anos, a Google protagonizou um mega negócio de Internet que o empreendedor Mark Cuban disse que só um idiota faria. A gigante pagou 1,65 mil milhões de dólares para adquirir um site de partilha de vídeos com pouco mais de ano e meio, uma soma considerada notoriamente exagerada na altura. Mas a aquisição provou ser presciente. O YouTube tornou-se numa internet dentro da Internet, com cerca de 2,5 mil milhões de utilizadores e o segundo site mais usado do mundo. Acima dele? Só o site da casa-mãe, Google.

É esta ascensão e o seu profundo efeito na sociedade que o novo documentário de Alex Winter, "The YouTube Effect", retrata. Estreou este mês nas salas de cinema norte-americanas e há-de chegar à distribuição noutros mercados, examinando uma história recente que mudou muita coisa em pouco tempo.

A primeira parte do documentário é um recapitular do mito por detrás da criação do YouTube, com uma entrevista interessante ao co-fundador Steve Chen. É notável que os cineastas tenham conseguido também uma entrevista com a ex-CEO Susan Wojcicki, que deixou o cargo em fevereiro depois de nove anos à frente da plataforma. Foi ela que liderou o YouTube durante o seu período mais explosivo e, quase de forma inexplicável, não sofreu o escrutínio que deveria quando se tornou óbvio que o site estava a disseminar desinformação, ódio e propaganda extremista.

"Estas plataformas estão no negócio do "engagement"", diz no documentário Hany Farid, professor na Escola de Informação de Berkeley. O triângulo é simples: manter os utilizadores dentro da plataforma, recolher informação sobre eles e mostrar-lhes anúncios com base nesses dados recolhidos.

Este modelo de negócio foi posto em esteróides a partir de 2011, quando a Google implementou o algoritmo de recomendação para alargar o tempo que os utilizadores passavam no site. Este algoritmo não diferenciava entre bom e mau conteúdo, entre conteúdo positivo e informativo e conteúdo falso, preconceituoso ou perigoso. O propósito era recompensar o conteúdo com altos índices de envolvimento dos utilizadores e recomendá-lo a mais pessoas. E isso, espelhando a índole humana, pende mais para o lado dos conteúdos que geram raiva e controvérsia.

"O algoritmo é uma besta que não pode ser domada depois de ser libertada", considera o Youtuber Anthony Padilla, que encontrou sucesso primeiro como parte da dupla Smosh e depois em nome próprio. "É o algoritmo que controla o criador."

Para se perceber o impacto do mecanismo, o documentário aponta para uma estatística estonteante: 70% de todos os biliões de vídeos vistos no YouTube são recomendados pelo algoritmo. Isto ajuda a explicar o efeito multiplicador de fenómenos nas franjas. Movimentos que anteriormente eram invisíveis ganharam um espaço desproporcionado; por exemplo, os crentes na Terra Plana: o YouTube é considerado responsável pela "epidemia" da crença na Terra Plana.

Pior, como sabemos, é a conexão entre a plataforma e a ascensão de movimentos extremistas, da alt-right ao QAnon. Um dos entrevistados no documentário é Caleb Cain, que conta como caiu no buraco da alt-right e se radicalizou online consumindo horas de vídeos recomendados pelo algoritmo. Ele admite que as ideias de base já estavam a dar à costa na sua cabeça, mas encontrou em gurus extremistas não apenas fundamentação como extrapolação. ""Estava a matar a minha empatia", admitiu. "Estava a tornar-me num sociopata."

Este trabalho de Alex Winter é um bom resumo do que foi a última década das redes sociais e da ascensão do vídeo, embora não explore ângulos novos e não apresente propriamente novidades. No entanto, é importante pelas ligações que faz e a exposição que dá a quem advoga uma reformulação das regras.

Perante situações horrendas como o Gamergate, Pizzagate, desafio Momo e invasão do Capitólio, deixou de ser possível para gigantes como a Google e Meta alegarem que são simplesmente condutoras imparciais de ideias.

A Internet, argumenta a advogada Carrie Goldberg, é um mecanismo muito conveniente para fazer mal aos outros. "A Internet é, em si própria, a arma", diz, contrariando estas grandes empresas que se escudam por detrás da ideia de que apenas espelham o que já existe. "Não é uma reflexão da sociedade", diz Goldberg. "Mudou a sociedade."

O argumento essencial aqui é que os oligarcas digitais que tomaram controlo dos espaços de discussão pública não podem continuar a operar sem maior regulação. Da mesma forma que colossos empresariais no passado, como impérios dos caminhos-de-ferro ou do tabaco, foram obrigados a enfrentar as consequências das suas acções.

É difícil, já percebemos todos. Vários senadores democratas tentaram fazê-lo nos últimos anos sem conseguirem uma maioria de votos a favor, e as coisas vão continuando na mesma com consequências cada vez mais graves. O empresário e especialista em tecnologia Dave Lauer resume assim: "Até que haja momento popular para estas mudanças, elas não vão acontecer."

E Caleb Cain, que conseguiu recuar do precipício, tem a última palavra no documentário, apelando a um abrandamento. "Estamos a acelerar as coisas demasiado rapidamente?", questionou. "E estamos a acelerar em direcção a quê?".

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