O elogio da temperança

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Quem lê jornais, ouve rádio ou vê televisão, e toma as notícias ou os comentários que lá se veiculam na sua literalidade, só pode ficar confuso ou angustiado. Parece que nada funciona, que nada está bem. São as greves na Justiça, na Saúde, na Educação e na CP. A subida dos juros, dos combustíveis e dos preços. Não há casas e as rendas e prestações aumentam sem limite. Na indústria, o desemprego tem aumentado. E a lista podia continuar. Até o futebol, no dizer de Ronaldo, está um circo (faltava o palhaço?).

Neste contexto, o texto que Mário Centeno publicou torna o irritante otimismo de António Costa uma brincadeira de crianças. Afinal, está tudo bem ou quase. Mais a sério: é uma análise sobretudo macroeconómica que esquece os detalhes da microeconomia das instituições e evita, ainda assim, temas mais incómodos como, por exemplo, a evolução da produtividade. Mas, mais importante, o texto mostra, implicitamente, a importância de alguns consensos e da persistência da estratégia, bem como o tempo que os resultados demoram a aparecer. A Educação é o melhor exemplo. Num país em que, devido aos atrasos, parece haver pressa para tudo, e radicalismo em tudo, os resultados na Educação, e dela decorrentes, são um elogio tácito à temperança e ao gradualismo, só possíveis num quadro de acordos duradouros.

Isto dito, será que o atual quadro político aponta para uma generalização dessa estratégia a outras áreas vitais como a Saúde, a Segurança Social ou a Justiça? A volúpia do poder e o incitamento tácito ao taticismo são algumas das fraquezas das democracias liberais. Germes que poderão levar à sua destruição (que não à do capitalismo). A maioria absoluta do PS poderia ser uma oportunidade única para que se sedimentassem algumas políticas de alcance estratégico. Os 12 anos de escolaridade ou as medidas que Mariano Gago impulsionou são bons exemplos: poderia haver discordâncias quanto ao tempo ou ao modo como as levar à prática, mas no essencial havia acordo, construído entre pessoas que se respeitavam e reconheciam, no outro, a mesma vontade de servir. E hoje?

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