O ensino à distância tem de ser realidade para todos

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Nesta fase o ensino à distância é, acima de tudo, um mal necessário e determinado pelas circunstâncias. E não pode ser desvalorizado ou diabolizado. Não tem seguramente o mesmo efeito que o ensino presencial, mas é aquilo com que vamos ter de viver nas próximas semanas (ou meses?). E no futuro, esperemos que não, pode voltar a ser novamente necessário. É acima de tudo um desafio de um paradigma diferente, para o qual deveria ter havido planeamento e preparação mais profunda, uma vez que poderia ser necessário voltar a ativar o modelo em pandemia.

Para os mais jovens, concretamente para os níveis do ensino obrigatório, o maior desafio da tutela é conseguir a igualdade ao nível do acesso e das infraestruturas para a aprendizagem, para que nenhuma criança ou jovem fique para trás. De nada adianta ter computador em casa se não houver ligação à internet. Ainda hoje, uma semana depois da reabertura, muitos recebem pedidos de computadores para alunos que não têm computadores e/ou acesso à net.

Mas ensinar à distância não é apenas ligar a videoconferência de manhã e terminar ao fim do dia. Como qualquer novo paradigma, implica todo um novo modelo pedagógico, que naturalmente não se consegue criar de um momento para o outro. Muitos estudantes estão inclusive completamente desacompanhados e apenas com o ecrã à frente. Há que dar espaço para que possam descontrair e, eventualmente, planear blocos mais curtos de conteúdos, para evitar quebras de concentração e aumentar índices de motivação e atenção.

Há seguramente muitos desafios para maximizar o sucesso do ensino à distância, sendo um dos maiores o do acesso e da equidade, para que os mais vulneráveis não fiquem de fora, ou sejam mais penalizados. Para tal, é fundamental que a sociedade como um todo se una, para exigir e tentar suprir as dificuldades atuais, para que o menor número de estudantes seja afetado.

Como já percebemos, não é alternativa não haver ensino à distância e parar a educação. Esta modalidade traz novas desigualdades, que se juntam a outras que já existiam, mas é aqui que entra a função do Estado em tomar as medidas que se exigem para mitigar estas diferenças e nivelar este ensino por cima. Entre as quais preparar os professores e os curricula, para essa realidade.

Há tanto que já devia ter sido feito e muito ainda para fazer, mas não podemos baixar os braços ou nivelar por baixo. É fundamental que se regresse ao ensino presencial, logo que as condições de saúde pública assim o permitam, e que se comece hoje a preparar o que for necessário para que, no pós-ensino à distância, se criem mecanismos para ajudar os estudantes a recuperarem aquilo que seguramente estão a perder por não ser possível estarem em aulas presenciais.

Presidente Executivo da Fundação José Neves e membro do Conselho Europeu de Inovação

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