Pedro Nuno Santos (PNS) não está a viver momentos fáceis. O Governo e, em particular, o primeiro-ministro estão a ter um desempenho acima das expectativas. Por outro lado, dentro do PS têm-se multiplicado as vozes críticas a respeito daquela que vinha sendo a linha orientadora - ou melhor, desorientadora - face à posição a tomar em relação ao Orçamento de Estado.
E, não menos importante, o Chega, com a sua política de “inconsistência estratégica”, preparava-se para no último minuto aprovar o orçamento, colocando o PS na posição desconfortável de ficar amarrado à extrema-esquerda - a tal que, com a sua irresponsabilidade habitual, já tinha manifestado ser contra o orçamento ainda antes de o conhecer.
Os tiros no pé eram tantos que PNS decidiu acabar com a sangria, antecipando a divulgação da orientação de voto socialista para o prime time desta quinta-feira. Até esse momento, o suspense girava em torno de um ponto percentual no IRC, pois no IRS Jovem o Governo já tinha cedido tudo o que podia, tendo Montenegro inclusivamente declarado que com os contributos do PS a proposta governamental até tinha ficado melhor.
Porquê tanta dúvida apenas por um ponto percentual? Como Augusto Mateus bem salientou em recente entrevista à RTP, era incompreensível não aprovar o orçamento por tão pouco - até porque “o tempo que temos agora, para a Europa e para Portugal, é um tempo difícil, não um tempo de propaganda”, esclareceu e bem o antigo ministro da Economia de António Guterres.
Acresce que neste momento ninguém deseja eleições. O Presidente da República não quer, o Governo não quer, nenhum partido com assento na Assembleia da República quer, os autarcas, com eleições daqui por um ano, também não querem e os Portugueses a última coisa que desejam são eleições antecipadas.
Porquê então esta relutância de PNS, Alexandra Leitão e companhia? Porque foram necessárias tantas semanas até o líder socialista vir declarar que vai propor a viabilização do Orçamento de Estado? A razão é ideológica. É que, como PNS várias vezes afirmou, há coisas que por convicção não pode aceitar.
Que coisas tão importantes haverá em matéria de IRC que perturbem a consciência do líder socialista? Em declarações recentes, PNS afirmou que a redução do IRC para 17% até 2028 “nunca terá o apoio do PS“. Porque, esclareceu, “o que nos separa não é o desagravamento fiscal dos impostos sobre o capital, mas a estratégia seguida para o fazer”.
Caro Pedro Nuno Santos, aqui é que o meu amigo está perfeitamente equivocado. O IRC não é um imposto sobre o capital mas sobre o rendimento de pessoas coletivas - pessoas coletivas que, na maioria dos casos, assumem a forma de empresas que são a principal fonte de criação de riqueza do país.
Quem olha para uma empresa e não valoriza o emprego que ela cria, os bens e serviços que ela proporciona à sociedade, o contributo que dá para a inovação e o desenvolvimento tecnológico, o seu papel na afirmação do país no mundo global em que vivemos - enfim, que só a vê como “capital”, com toda a carga ideologicamente negativa que a palavra tinha na época da revolução industrial - então essa pessoa está fora do seu tempo.
Portugal precisa que à frente do principal partido da oposição esteja alguém com uma visão do mundo adequada ao século XXI e não ao século XIX. Porque se os socialistas mantiverem a sua linha (des)orientadora da atual liderança, há um partido (o tal que faz da inconsistência a sua arma estratégica) que só espera o momento de surgir como alternativa de governação.
Para já esse momento ficou adiado. Pedro Nuno Santos, num rasgo de clarividência de que já
começávamos a duvidar, não vai dar a André Ventura o “privilégio e honra” de ver o Chega a viabilizar o orçamento e a tornar-se, dessa forma, o fiel da balança do regime.
Professor da Porto Business School