O futuro da água

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"Por vezes esquecemos que o ciclo da água e o ciclo da vida são um só" - Jacques Yves Cousteau

Todos os dias temos a oportunidade para refletirmos sobre a nossa relação com a Água, um recurso vital, e a forma como o estamos a gerir. O acesso à água é um direito inalienável e que cabe a cada um de nós agir de forma responsável e consciente para preservá-la. Mas, será que estamos no caminho certo?

Os dados não são animadores. Pelo contrário, são críticos e reveladores de um paradigma que é urgente mudar. De acordo com a ONU, 2,3 biliões de pessoas vivem em países com stress hídrico. Além disso, em 2020, quase dois biliões de pessoas não tinham acesso a água potável, quase 3,6 biliões não contavam com instalações sanitárias e 2,3 biliões não tinham condições de lavar as mãos em casa.

Assim, há um conjunto de reflexões que urge colocar na agenda pessoal de cada um de nós. Como sabemos, a água potável tem um impacto direto na saúde pública. Sem acesso a água de qualidade, as estatísticas apontam para que dez milhões de pessoas morram anualmente devido a doenças intestinais transmitidas pela água. O problema apresenta-se sério e longe de cumprir com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável adotados pela ONU em 2015, que incluem garantir o acesso generalizado a serviços de água e saneamento geridos de forma sustentável até 2030.

Além do impacto na saúde, a água desempenha também um papel fundamental no desenvolvimento económico e social. É um recurso vital para a produção de alimentos, geração de energia e manutenção de processos industriais. Sem acesso adequado a este recurso, muitas comunidades enfrentam enormes dificuldades no desenvolvimento das suas economias e até de sobrevivência. A escassez deste precioso recurso conduz até à migração forçada de comunidades inteiras, que, vítimas de mudanças climáticas que conduzem a condições ambientais extremas, com um impacto negativo na sua saúde e bem-estar, se vêm forçadas a deixar os seus territórios de residência para procurar fontes de água seguras e com isso, garantir a sua subsistência nos diversos planos da vida.

As alterações climáticas têm também um impacto significativo na disponibilidade e qualidade da água, afetando a segurança hídrica e a sustentabilidade dos ecossistemas. As mudanças no clima, incluindo o aumento das temperaturas e a alteração dos padrões de precipitação, conduzem a uma diminuição da disponibilidade de água em muitas regiões do mundo. As temperaturas mais elevadas e a maior frequência de eventos climáticos extremos, como enchentes e secas, podem levar a um aumento dos níveis de poluição da água e, consequentemente, prejudicar a saúde humana e a dos ecossistemas aquáticos.

A este panorama crítico, acresce o facto que as diferenças registadas entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento colocam em evidência que a crise mundial dos recursos hídricos está diretamente ligada às desigualdades sociais.

Por todas estas razões e muitas outras que poderia apontar, a gestão da água é um desafio cada vez maior. No próximo meio século, cerca de 3 biliões de habitantes nascerão em países que já sofrem de escassez de água. É urgente desenvolver estratégias de adaptação e mitigação para minorar os impactos das alterações climáticas que inclui investir em infraestruturas de água e saneamento, melhorar a eficiência do uso da água, promover a sua conservação, restaurar ecossistemas naturais e adotar práticas agrícolas e industriais sustentáveis.

Todos e cada um de nós, na sua quota de responsabilidade pessoal, comunitária, empresarial ou governativa, tem um papel determinante hoje, na construção do amanhã. Só através da promoção de uma cultura responsável, sustentável, uma cultura de paz e respeito, seremos capazes de deixar um legado determinante para assegurar o futuro das próximas gerações e do planeta que habitamos.

Vítor Hugo Gonçalves, CEO Sociedade da Água de Monchique

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