O incrível valor da Guerra das Estrelas

Publicado a

Na primeira sessão da convenção Star Wars Celebration, numa arena esgotadíssima onde nem uma cadeira ficou vazia, a apresentadora Ivette Nicole Brown começou por reconhecer o momento estranho que estávamos a viver. Dias antes, ocorrera um massacre indizível numa escola primária que deixou 21 mortos, e agora ali estavam milhares de pessoas brandindo armas falsas e sabres de luz coloridos numa celebração da vida.

"Vamos tirar este tempo para nos juntarmos, como comunidade", disse. "Num sítio onde podemos ter um escape do mundo real e celebrar o triunfo do Bem sobre o Mal."

Foi para essa galáxia muito, muito distante que cerca de 65 mil fãs vindos de todo o lado viajaram nesta convenção que decorreu em Anaheim, sul da Califórnia, depois de três anos de paragem por causa da covid-19. As máscaras elaboradas, os dróides feitos em casa, as centenas de expositores que vendiam acessórios e relíquias do universo Star Wars, e sobretudo os painéis com ovações ensurdecedoras demonstraram o quão forte é este franchise, 45 anos depois.

E multimilionário, também. As estimativas apontam para que o universo Guerra das Estrelas tenha um valor aproximado de 70 mil milhões de dólares, ou cerca de 65 mil milhões de euros. Isto faz dele o quinto franchise mediático mais valioso da História.

Uma grande fatia deste bolo deve-se à venda de merchandising, que é um colosso em direito próprio: até 2014, o autor do livro "How Star Wars conquered the Universe", Chris Taylor, estimava que as vendas de acessórios tinham atingido os 32 mil milhões de dólares. Ora, desde então saíram mais três filmes oficiais da saga (e outros relacionados), com o primeiro, "O Despertar da Força" em 2015, a bater todos os recordes de bilheteira e vendas de merchandising.

Os números associados à marca explicam porque é que a Disney pagou quatro mil milhões de dólares pela Lucasfilm em 2012, e porque é que esta é uma das principais âncoras da plataforma Disney+. É aqui que têm saído as séries deste universo cinemático, começando por "O Mandaloriano" em 2019, passando por "O Livro de Boba Fett" no final do ano passado até ao mais recente "Obi-Wan Kenobi", que se estreou na última sexta-feira.

O ambiente incrível que se viveu no Star Wars Celebration, uma convenção que tinha bilhetes a partir dos 40 dólares por criança até aos 900 dólares pelo acesso VIP das entradas "Jedi Master", dificilmente tem paralelo na cultura pop. A celebração estendeu-se ali para o lado, na Disneyland, onde a porção Galaxy"s Edge faz uma recriação exímia dos cenários Star Wars. A experiência leva os fãs a bordo da Millennium Falcon, recruta-os como parte da Resistência numa batalha contra a Primeira Ordem, permite-lhes construir os seus próprios sabres de luz e convida-os a explorar as vistas no planeta Batuu.

É, como disse Ivette Nicole Brown, um escape à realidade. Mas com uma mensagem estrutural por trás. Esse foi um dos pontos que se falou especificamente com os protagonistas do documentário "Light & Magic", sobre como a divisão Industrial Light & Magic (ILM) revolucionou os efeitos especiais.

Rose Duignan, a primeira chefe de marketing da ILM, falou de como George Lucas estava focado em conceber uma história com valores, que ensinasse aos pré-adolescentes de 12 anos o valor do altruísmo contra o egoísmo. Um pacifista, um defensor de causas, Lucas criou um universo complexo com personagens multi-dimensionais que se tornaram intemporais.

O incrível valor monetário da Guerra das Estrelas empalidece frente ao seu valor cultural e emocional, a quantidade de vidas que mudou, os criativos que inspirou e a comunidade que construiu à sua volta. A Força está com todos os que acreditam nela, e nunca é tarde para começar a fazê-lo.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt