As estatísticas financeiras mostram uma dura realidade em Portugal nas últimas quatro décadas: estamos a caminhar para uma situação pior tanto em termos de rendimentos privados e carga fiscal, como de gastos públicos e produtividade do trabalho.
Poderão problemas económicos passados, como a crise de 2008, ou aqueles que se avizinham, derivar de um sistema que baseia a criação de dinheiro na dívida?
Para responder a isto, terei de recuar até ao início da década de 1980. Nesta altura, a emissão de dinheiro era controlada pelo Banco de Portugal, que gostava de ter as rédeas curtas tanto com a taxa de juro, como com a taxa de inflação. Após a entrada para a UE, em 1989, começou o boom na expansão da massa monetária. E este apenas parou em 2008, quando a crise financeira explodiu. Um processo doloroso que tivemos de sofrer, para aproximar a economia financeira da economia real e produtiva.
Infelizmente, foi sol de pouca dura e não aprendemos nada com esta lição. Desde 2006, a massa monetária em circulação mais que duplicou.
Poderíamos justificar que é necessário um aumento da massa monetária para satisfazer aumentos reais na produção, que derivam de um aumento do investimento privado e público. Mas o que constatamos é o oposto.
A tendência tem sido a de uma diminuição constante do investimento público nos últimos 20 anos. Se em 1995 a fatia disponível para investimento público era de cerca de 26% do PIB, já em 2016 estamos a falar de apenas 18%.
Mais, se a massa monetária aumentou, onde está ela? Quem se financiou? Onde foi gasto o dinheiro?
Para encontrarmos a resposta, devemos olhar para a evolução da despesa pública contraída pelas várias administrações públicas. Se em 1991 cerca de 56% do PIB Português era usado para pagar as dívidas do estado, em 2018 estamos a falar de cerca de 124%.
Não conseguimos produzir riqueza suficiente em Portugal para pagar o total da nossa dívida. O Estado português conseguiu devassar totalmente as poupanças feitas pelas gerações anteriores.
É importante reter esta informação: Neste momento, tudo o que produzimos em Portugal serve apenas para pagar dívida financeira. Dívida essa criada devido ao sistema monetário ser pouquíssimo transparente, baseado numa estrutura piramidal; onde o acesso à produção de moeda é exclusivo apenas para alguns membros e as informações financeiras sobre as instituições que controlam os nossos bens não são 100% públicas; e porque é fácil de coagir o sistema, ao ser possível implementar mecanismos que beneficiam poucos em detrimento de muitos.
Após o crescimento exponencial do sector financeiro, com base na impressão constante de notas e moedas digitais, o pêndulo do crescimento oscilou para um sector não produtivo que cria bolhas. Muitas bolhas. Especialmente no sector imobiliário e nos mercados financeiros.
Porém, o melhor indicador do valor do dinheiro acaba por ser a taxa de inflação — que segundo parece, não tem intenções de voltar a aumentar.
Ou seja, como é que Portugal tem uma taxa de inflação perto dos 1% e ao mesmo tempo, um aumento exponencial na quantidade de moeda em circulação, durante a última década?
Para mais, baixas taxas de inflação ditam baixas taxas de juro.
Se o dinheiro for quase oferecido, a tendência será de aplicá-lo em sectores com mais risco. Logo, maior é a probabilidade de entrarmos numa espiral de mau investimento, como tem sucedido nos últimos anos (PPP, setor bancário).
Esta foi a ideia por detrás da resolução da crise, aliada à emissão constante de obrigações de tesouro, de forma a financiar as operações públicas. Uma “solução” que está a agravar toda a situação económica mundial. No final, uma grande parte das economias desenvolvidas apresentam taxas de juro, de médio e longo prazo, negativas.
Esta é a pior resolução possível para o comum trabalhador, que guarda grande parte das suas “poupanças” em notas e moedas digitais.
Com a emancipação da teoria monetária moderna, expandida pelos bancos centrais, que se baseia em aumentos quantitativos — ou seja, na criação “à bruta” de moeda — a alocação de capital nos mercados foi pouco eficiente.
Poderá a economia portuguesa recuperar da criação massiva de moeda e da sua má alocação, ao longo de 40 anos?
Deixo a resposta para a imaginação de cada um.