Durante a nossa jornada pela descoberta de uma resposta ao sistema monetário fiduciário, devemos esforçar-nos ao máximo para perceber quais os erros cometidos pelas instituições responsáveis pela gestão monetária, de modo a evitar os mesmos no futuro.
É com esta nota introdutória que me debruço sobre os mercados financeiros em Portugal, que no seu todo tiveram uma performance bastante medíocre, apesar da expectativa positiva que a revolução tecnológica e da internet chegaram a trazer, no princípio da década de 2000.
Olhemos para o PSI20, a principal bolsa portuguesa. Em primeiro lugar, noto que a massa monetária depositada na compra de ações no PSI20 cresceu em mais de 100%. Aumentou de 4MM, entre 1993 e 2013, para 8MM, entre 2014 e 2017. Admiravelmente, isso em nada afetou os preços na generalidade das ações, visto que o valor médio do PSI20 não teve aumentos de todo semelhantes à bolha anterior, no início dos anos 2000.
Contudo os acontecimentos inexplicáveis não terminam por aqui. Um outro claro exemplo da loucura dos mercados financeiros é a taxa de rentabilidade das obrigações de tesouro. O que os dados mostram é que de 1999 a 2018 a confiança dos investidores na capacidade de pagamento do juro, por parte dos governos, caiu significativamente. Se em 1999 o juro oferecido era perto dos 5%, já em 2018 o mesmo juro corresponde a cerca de 1.8%. Em termos representativos a magnitude desta queda ronda uma diminuição de 75% nos juros oferecidos.
Ou seja, até já os próprios governos admitem uma total incapacidade em pagar a sua dívida, no longo prazo.
Estaremos nós a chegar ao ponto da Alemanha, onde o valor dos juros da dívida soberana, a 30 anos, atingiu valores negativos, de cerca de -0,4%? Será que iremos chegar ao ponto de investidores pagarem um juro ao governo para este não fazer default no pagamento da sua dívida?
Caso seja esse o caminho, devo ponderar qual a reação dos investidores. Se os mercados financeiros não são atrativos, onde poderá o dinheiro ser aplicado?
Olhando para os números, a maior aposta dos últimos anos tem sido em comprar e arrendar. Caso o caro leitor não acredite, repare bem: em julho de 2019, Portugal era o país com as casas mais caras no mundo, quando vistas à luz da inflação real.
Será que este comportamento representa uma clara melhoria das condições económicas em Portugal? Ou será apenas uma sobrevalorização de imóveis, que rapidamente se irá dissipar?
Fazendo as contas, constatamos que os preços das casas e das rendas aumentaram entre 30% a 40%, no período que cobre 2015 a 2018, enquanto os salários médios aumentaram, talvez, 1% no mesmo período. Isto é, não só os salários estagnaram e caíram nos últimos 10 anos, como o preço médio dos imóveis aumentou.
Parece-vos lógico as pessoas estarem a receber menos e a pagar mais pela sua habitação?
Neste panorama, certamente que esperaríamos um contragolpe do Estado, de modo a salvaguardar os interesses dos portugueses. Isto é, se os dados mostram um aumento crescente na disparidade entre o preço das habitações e os salários médios, porque não tomar medidas concretas? Porque não reduzir os impostos sobre o rendimento? Ou a carga fiscal das empresas?
Para concluir, sublinho a importância dos dados analisados. Demonstrei que a quantidade de dinheiro aplicado nos mercados financeiros em Portugal aumentou exponencialmente de volume, durante os últimos 10 anos. Contudo, esse aumento não se converteu num aumento dos preços dos ativos do PSI 20, o que demonstra a falta de confiança dos investidores, na nata das empresas portuguesas. Adicionalmente, percebemos que esses mesmos investidores, também eles não acreditam no pagamento da dívida soberana. Por fim, descobrimos onde o dinheiro está a ser aplicado na sua maioria: em bens imobiliários.
Este movimento representa graves problema para os portugueses, porque não só os salários não comportam o aumento dos preços, como também há um risco inerente de bolha, visto que o setor imobiliário é bastante ilíquido.