O Neymar loiro da publicidade

O copo meio cheio ou meio vazio. Ser jovem é ter certezas sobre quase tudo mesmo a não saber quase nada. É a beleza de não ter rugas na cara e as limitações de não ter rugas na alma.
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Ser jovem é colocar o carro à frente dos bois, construir edifícios sem estudar estruturas e fundações.

Uma cena de um filme. Um soldado nazi encontra-se com outro na noite estrelada de uma Paris ocupada. O primeiro pergunta: "O que irás fazer hoje?". O segundo exclama feliz: "Vou incendiar o Louvre". A resposta atiça a curiosidade do outro: "Fixe. Mas isso é coisa rápida, depois que irás fazer?" A resposta vem lacônica: "Não sei ainda... Talvez estudar história da arte..."

Ser jovem é achar que o mundo começou ontem. É medir o tamanho das coisas pela própria altura.

Uma vez, estava no Festival de Cannes e fui apresentado a uma jovem estudante de publicidade que havia ganho a viagem num concurso. O evento já estava no seu último dia, era hora de fazer os últimos brindes. A miúda, porém, não estava para festividades. De cara amarrada, afirmava que Cannes tinha sido uma desilusão, que esperava muito mais daquilo. Abanei a cabeça e perguntei quando ela começaria o curso de enfermagem. Ela não compreendeu a ironia. Expliquei: "Minha filha, este é o maior e mais tradicional festival publicitário do planeta. A verdadeira meca dos anúncios. Por estas calçadas passaram e vão continuar a passar, orgulhosos, os maiores nomes da nossa atividade. Se no Olimpo houvesse anúncios, de certeza que os deuses sonhariam em vir a Cannes. Agora, se acha isto aqui um bocado pindérico (até porque é) e pouco mais interessante do que o Tamariz a meio do Verão, o melhor será desistir. Não há nada acima disto. Lamento se não conseguimos criar algo que seja do teu interesse. Só que não".

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Ser jovem é não ter a palavra humildade escrita no seu dicionário. Como o diálogo que ouvi entre dois estagiários num elevador, esta semana.

Rapaz 1: "Acho que vou pintar o cabelo de loiro".

Rapaz 2: "Loiro? Mas vais ficar muito estranho".

Rapaz 1: "Pois vou. Vou tornar-me o Neymar loiro da publicidade".

Cheguei ao meu andar sem perceber aonde iria o raciocínio, mas a conversa lembrou-me uma história antiga. Dois comentadores de um jogo de futebol, no Brasil, divergem sobre as capacidades de um jogador. Um diz que o atleta seria um novo Pelé. O outro diz que talvez, mas para isto ser verdade ainda faltava ao tipo duas coisinhas, ser negro e aprender a jogar à bola.

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Tudo isto para dizer que, com todos os seus problemas, com todas as suas incongruências, todos os seus exageros, todas as suas pequenas vaidades, falta de humildade, radicalismos e intolerâncias, o mundo seria muito chato sem os jovens.

Se quer manter-se vivo, cerque-se deles. Se quer que a sua empresa prospere, contrate-os. Se quer saber como será o amanhã, leia as palmas das mãos de quem tem menos de trinta anos. Isto vale para qualquer atividade, mas trata-se de um conselho especialmente válido para a publicidade.

Nada contra os cabelos brancos (tenho muitos), mas o próximo David Ogilvy deve estar a esta a hora a andar de skate e a pensar que o futuro pertence a ele.

Ou como diria o meu Tio Olavo: "A juventude é a embriaguez com ou sem vinho".

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