A ideia de impor uma taxa sobre todos os depósitos foi do
presidente cipriota. Mentira: não foi. Foi do FMI. Foi da Alemanha.
Foi do BCE. Foi da Comissão Europeia. A verdade? A verdade é que
não interessa: foi aprovada por unanimidade pelos 17 países do
euro, Gaspar incluído, claro. Todos juntos e de acordo. A
unanimidade é burra, não é? A da Zona Euro é pior: é
subserviente. Aliás: aumenta a recessão, provoca divisão, estimula
o ressentimento. Segundo conta a agência Reuters, nessa noite fatal
um dos presentes "sentiu vontade de vomitar" quando
percebeu o que ia ser decidido. Haja alguém com estômago, embora
possa ter sido apenas a reação aos finger sandwiches, não o efeito
azedo do sauerkraut na receita financeira.
Nessa longa madrugada de Bruxelas sucederam-se os encontros entre
os ministros das Finanças (laterais, bilaterais, trilaterais) para
que se chegasse a uma conclusão; ou seja, onde a Alemanha exigia
chegar. Entretanto, alguns - os ministros irrelevantes, talvez a
maioria - jogavam com os smartphones nos corredores para matar o
tempo. Jogariam Angry Birds para aliviar a chatice? Não sei, os
relatos divergem, a Reuters não esclarece e ninguém se quer
comprometer: o que acontece em Bruxelas fica em Bruxelas. É assim o
eurocasino em que jogamos o futuro.
Como se constata, a estupidez é alarmante: é sempre insistente.
Schäuble insiste na destruição. Merkel na austeridade. Jeroen
Dijsselbloem - o novo presidente do Eurogrupo - insiste em seguir a
matilha. Só José Manuel Barroso desiste. Alguém tem ouvido o
presidente da Comissão Europeia dizer alguma coisa de razoavelmente
independente e corajoso que ajude a resolver o problema? Suspeito que
nestes anos todos ele não tenha deixado cair apenas parte do
apelido. Durão, wo bist du? Where are you? Já sei: ele é como o
Papa, não tem nacionalidade. De acordo, mas convinha que tivesse um
mínimo de ideias próprias. Durão, diz alguma coisa de europeu, pá.
Vamos ver se nos entendemos. Cobrar uma taxa aos depositantes,
embora agressivo e arriscado, teria feito sentido se não fosse
violada a diretiva europeia que protege os depósitos até aos cem
mil euros. Toda a gente percebe isto: para não penalizar os
contribuintes - esmagados por impostos -, pagariam desta vez os que
ganharam mais com os juros estrelares da banca cipriota. Ganhar e
perder faz parte do jogo, mas é preciso ter critério, diferenciar
na altura de penalizar. Castigar todos os depositantes por igual não
é (não seria) a mesma coisa. É - teria sido - um castigo excessivo
aos cipriotas e um aviso ao Sul da Europa através da violação
(disfarçada, prepotente, irresponsável) da lei europeia. Foi assim
que os famosos mercados interpretaram os acontecimentos destes dias.
Ficou tudo em causa. Felizmente, Vítor Gaspar tranquilizou-nos logo:
isto não aconteceria no Portugal, só em Chipre. Será uma das
previsões dele...?