O privilégio (o)acidental

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Com uma temperatura amena e um cheiro doce a Primavera no ar, sentindo já a promessa dos jacarandás que em breve vão arroxear Los Angeles, a realeza de Hollywood pisou a passadeira vermelha este fim-de-semana para a entrega dos prémios da Associação de Críticos, da qual faço parte. Havia um misto de entusiasmo, alívio e angústia no ar. Entusiasmo por um evento ao vivo, sem máscaras e cheio de glamour, alívio pelo aparente regresso à normalidade, e angústia pela noção clara de que estamos a trambolhar a toda a brida para uma catástrofe mundial.

Essa dualidade foi assinalada em vários discursos e nas conversas informais durante a cerimónia. Comentários sobre o aumento brutal do custo dos combustíveis, que atingiu níveis nunca antes vistos nos Estados Unidos, foram quase sempre seguidos de reconhecimento: que este é um preço pequeno a pagar quando do outro lado do mundo há grávidas a serem mortas em ataques a maternidades, jornalistas a morrerem a tiro e milhões de pessoas a deixarem tudo para trás numa busca desesperada pela sobrevivência.

O preço médio por galão no país está agora nos 4,25 dólares, o que significa que cada litro de gasolina já está acima de 1 dólar. É pouco olhando para os preços noutros mercados, mas muito tendo em conta que este país foi desenhado em cima de combustível barato, com uma má rede de transportes e uma dependência gigante de produtos derivados de petróleo. Na Califórnia está pior: em Los Angeles, não se consegue abastecer a menos de quase 6 dólares por galão, ou mais de 1,5 dólares por litro. Com uma inflação que já está nos 7,5%, isto são péssimas notícias para toda a gente.

É impossível ignorar as dificuldades económicas que este encarecimento da energia já está a causar, especialmente quando ainda estamos a sair de dois anos de crise pandémica. A recuperação que antecipávamos vai por água abaixo. Há um potencial muito preocupante de que a ordem mundial seja de tal forma abalada que paz e prosperidade sejam conceitos que não voltaremos a ver por décadas. O conforto e os preços baixos proporcionados pela globalização terão, possivelmente, os dias contados. Vamos assistir a uma reordenação do nosso modo de vida.

Parece claro que este é o momento para aceitar que a descarbonização das economias não é apenas uma necessidade ligada à crise climática. É também uma forma de libertar as democracias da dependência do petróleo produzido por estados pouco recomendáveis. Vai levar anos a acontecer, com muitos percalços e um fardo orçamental para que ninguém estava preparado, mas é preciso avançar agora, mesmo no meio do caos.

Os governos ocidentais vão ter de preparar os cidadãos para uma transição difícil e ajudá-los a aguentá-la. O economista especializado em energia Mark Wolfe defendeu, há pouco tempo, que o governo norte-americano deve apostar numa nova medida de apoio directo às famílias enviando-lhes cheques de estímulo similares aos que foram enviados por causa da pandemia. Wolfe ressalvou que a medida deve ser focada nas famílias de rendimentos baixos a moderados, ou seja, mais circunscrita que os estímulos pandémicos, para limitar o impacto na inflação.

Ainda assim, parece óbvio que algo terá de ser feito para suavizar o choque da subida exponencial dos preços da energia no orçamento das famílias. Seja por estímulos, redução da carga fiscal ou medidas temporárias (por exemplo, voltar a enquadrar o teletrabalho? Tornar os transportes públicos gratuitos?).

Num momento tão conturbado e com os efeitos profundos que a pandemia teve, é difícil olhar para isto e ver algum tipo de privilégio. Mas ele existe. Ao olhar para todos estes factores que justificam pessimismo e preocupação, fazemo-lo sem o som de bombas a caírem em edifícios. Fazemo-lo sabendo que não haverá tanques a rolarem pelas nossas cidades dentro. Fazemo-lo com a noção de que temos, para o bem e para o mal, um privilégio ocidental que é também acidental. Porque nascer na geografia certa é nada mais que sorte.

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