O que aprendi a ver mulheres a jogar futebol

Aqui nos Estados Unidos fala-se mais de "soccer moms", as donas de casa que andam sempre a levar e a trazer os filhos dos treinos, do que de futebol propriamente dito.
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Pelo menos até há bem pouco tempo. Foi uma das coisas de que mais senti falta quando cheguei, e por isso memso fiquei espantada com a excitação em torno do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino, que a FIFA organizou no Canadá.

Se há coisa capaz de pôr os americanos em sentido é o apelo ao patriotismo. A selecção nacional feminina tinha sido derrotada pelo Japão na final do Mundial há quatro anos, e esta era a oportunidade para vingar o orgulho perdido. O país parou no Domingo, 5 de Julho, para ver uma final frenética que os Estados Unidos venceram por 5-2 - de tal forma que a transmissão do jogo bateu todos os recordes televisivos de futebol no mercado norte-americano. Foi a partida mais vista de sempre, com 26,7 milhões de espectadores, acima do anterior recorde de 26,5 milhões da final masculina no ano passado, entre a Alemanha e a Argentina.

Ambas tiveram mais de 26 milhões de espectadores. O pormenor interessante, olhando para as estatísticas destas duas finais, é a sua composição: em 2014, o Mundial masculino teve 17,3 milhões de espectadores no canal ABC, em inglês, e 9,2 milhões na Univision, em espanhol. Na semana passada, a final do Mundial feminino teve 25,4 milhões de espectadores na Fox, em inglês, e 1,3 milhões na Telemundo, em espanhol. É mais fácil interessar os norte-americanos por futebol feminino que por masculino, e o oposto acontece com a comunidade latino-americana, habituada a olhar para este desporto como coisa de homens.

Quando a selecção dos Estados Unidos regressou do Canadá, teve direito a uma monumental celebração na baixa de Los Angeles, levando milhares de pessoas à Microsoft Square. Passei por lá e surpreendi-me pela quantidade de gente, que mal dava para ver as jogadoras em palco. As suas fotografias passavam em ecrãs gigantes em poses heróicas, e nas colunas ouvia-se "We are the Champions", dos Queen. Gritava-se como se fosse um autêntico estádio de futebol. Em vez dos miúdos vestidos com a camisola do William Carvalho ou do Luisão, havia meninas de 7, 8, 9 anos equipadas à Hope Solo ou Megan Rapinoe. Davam toques na bola e exibiam-se umas para as outras. Gritavam "USA! USA!" e "I believe that we just won!", uma alteração ao "I believe that we will win" que antecedeu a final. As jogadoras da selecção americana, elevadas ao estatuto de heroínas nacionais, deram autógrafos e tiraram selfies com as meninas, mas não só. Havia muitas mulheres, mas também muitos homens presentes na celebração. Para alguém que vem de um mercado onde o futebol é dominado por homens, parecia uma realidade alternativa.

Na sexta-feira, a selecção voltou a ser homenageada com uma parada em Nova Iorque. A vitória foi de tal ordem que os bilhetes para os jogos do campeonato feminino, que foi retomado este fim-de-semana, subiram em flecha.

"Jogas à bola como uma menina", por aqui, não tem um sentido pejorativo. A narrativa mediática é outra, e isso, aprendi, é o bastante para que as pessoas se interessem e o investimento seja maior.

A atenção e a aposta publicitária estão a tornar o futebol feminino num desporto sério e respeitado, muito para lá do apontamento numa breve num canto de jornal. Como consequência, há mais meninas a quererem praticá-lo. Há mais homens a respeitarem as mulheres que o fazem. Oxalá tenha sido a última vez em que o prémio pago às campeãs foi 40 vezes inferior ao pago aos campeões em 2014. Como partilhou a escritora Jaclyn Friedman no Twitter, "Depois deste jogo, é bom que todos comecem a chamar-lhe "futebol" e "futebol masculino."

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