O que esperar dos próximos seis meses?

Publicado a

Em tempo de balanço dos primeiros seis meses, podemos definir 2024 como um ano de transição em várias frentes: económica, geopolítica e tecnológica. Primeiro, porque os braços de ferro com os elevados níveis de inflação parecem estar ultrapassados, sendo que na Europa o Banco Central Europeu procedeu já em junho à primeira redução de taxas, enquanto nos Estados Unidos pouco faltará para acompanhar este movimento. Depois, porque quer as eleições para o Parlamento Europeu, quer o primeiro debate das presidenciais dos Estados Unidos, deixam claro que nos próximos anos haverá um maior peso da agenda ligada à defesa militar e da segurança, ao protecionismo comercial, e também ao controlo dos movimentos migratórios, que se poderão sobrepor aos projetos europeus de coesão. Por fim, a Inteligência Artificial (IA) ganhou relevo a nível global pelo e impacto económico e social que pode ter no resto da década - a empresa americana Nvidia líder na produção de componentes ligados à IA viu a sua cotação subir em bolsa cerca de 150%, e chegou a superar a Apple enquanto empresa mais valiosa cotada no mercado acionista dos Estados Unidos, que este ano tem vindo a registar sólida valorização (+15,3%) desde o início do ano.

O que podemos então esperar do resto do ano, agora que entramos na segunda metade de 2024? Em termos de temas, as coisas não vão ser muito diferentes. A evolução da inflação, da geopolítica e a inovação vão continuar a ser o molde das expectativas e dos receios no resto do ano.

Em primeiro lugar, a confirmação de que entramos num ciclo de descida de taxas de juro. A inflação está controlada, mas podem sempre existir alguns percalços pelo caminho. À partida devemos confiar que teremos taxas de juro mais baixas, e que a flexibilização monetária provavelmente continuará durante o segundo semestre.

Neste contexto, as famílias terão progressivamente melhores condições de poupança via descida das prestações dos créditos hipotecários, ou de aquisição de financiamentos para as empresas de pequena ou média dimensão em melhores condições. Mas também significa que para os investidores, sobretudo os mais conservadores, terão menores retornos pelo dinheiro colocado em produtos de taxa, como os depósitos a prazo.

A geopolítica também continuará a marcar a agenda, sobretudo com as eleições norte-americanas e os conflitos militares na Ucrânia e no Médio Oriente a poderem levantar o espetro de uma escalada global de uma nova guerra fria, enquanto que na União Europeia, a influência dos partidos eurocéticos poderá fazer-se sentir de forma mais acentuada.

Por fim, é provável que a economia comece a olhar de outra forma para os anunciados investimentos gigantes na Inteligência Artificial. A empresa Nvidia anunciou em maio uma subida de 2,6 vezes das receitas obtidas face ao 1.º trimestre de 2023, ao mesmo tempo que titãs do setor como a Microsoft, Alphabet, Meta ou Amazon anunciaram aumentos significativos do investimento das suas infraestruturas de Inteligência Artificial, que deverão crescer 40% este ano, ultrapassando valores acima dos 200 mil milhões de dólares, e aos quais a dinâmica da economia, e da sociedade, não será indiferente.

Luís Tavares Bravo, economista, presidente do Internacional Affairs Network

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt