Portugal não teve ainda um contributo marcante para a gastronomia
global, ou melhor, para a gastronomia pop global. Alguma coisa tipo
sushi, o restaurante chinês, o wok, a tagine, o paté, o hambúrguer,
o expresso ou a pizza, que é, provavelmente, a mais famosa invenção
da cozinha popular e o maior contributo de Itália para a felicidade
mundial. Pode o pastel de nata ser a nossa pizza e o nosso contributo
para a gastronomia pop mundial?
Não foi isto que o ministro disse, mas é compreensível que não
o tenha dito. O ministro está assoberbado de trabalho e, entre
negociações para chegar a acordo com os sindicatos sobre a melhor
forma de conseguir o empobrecimento geral da população, negociações
para a redução racional dos transportes metropolitanos e outros
muitos trabalhos, é compreensível que não tenha tido tempo para
olhar o dossiê "pastel de nata" e o tenha usado, ao pastel,
apenas como alegoria para dizer aos nossos moles e acomodados
empresários "deixem-se lá de peneiras e façam qualquer coisa".
Era isso que o ministro queria dizer. Mas vamos ao pastel de nata.
Exportar pastéis de nata é, em si, uma ideia fraquita. É como a
Itália exportar pizzas e ganhar dinheiro com isso. A pizza é comida
em todo o mundo e não há memória de haver empresários italianos a
importar divisas com a pizza que exportam. Também o mundo não paga
royalties à Itália pela ideia. É pena que não pague, porque assim
provavelmente a Itália não estaria como está. Uma pizza, como um
pastel de nata, faz-se em qualquer lado. Em qualquer lado há ovos e
natas e farinha e, se houver know how, há pastel de nata.
O que pode exportar-se é a ideia do pastel de nata e, associado a
ela, o nome de Portugal. O que a Itália exportou foi a ideia de
pizza. O que ganhou foi um embaixador e, com ele, good will e, com o
good will, dinheiro. Cada vez que comemos uma pizza por esse mundo
fora estamos a consumir Itália, estamos a ser adeptos e fãs da
Itália. A Itália exportou uma boa ideia gastronómica, fácil de
fazer em todo o lado e assim todos nós, ao gostarmos de pizza,
estamos a gostar uma pouco mais desse belo país. E isso tem preço,
pode não ser fácil de contabilizar, mas tem preço.
O mesmo podia, se calhar, fazer-se com a portuguese custard tart
que é, de toda a nossa produção gastronómica, o produto que tem
melhores condições para ser adoptado e entrar na rotina
gastronómica global. Conseguia-se deste modo um pouco mais de
awareness, de top of mind e de doçura para o nome de Portugal.
Exportá-lo? Impraticável, porque os pastéis chegariam frios.
Uma marca? É como ser dono de uma marca de pizza, é possível aqui
ou na China e o dinheiro não vem para cá. Exportar a ideia,
promovê-la e pô-la na boca do mundo? Isso, sim, é possível.
Nestes tempos de diplomacia económica talvez se possa desviar
algum do dinheiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros para
promover o pastel de nata. Mas promovê-lo literalmente, ou seja, uma
promoção de carreira: uma promoção de pastel a embaixador. Não
era estranho nem a primeira vez que se promovia um pastel a
embaixador. Nem seria concerteza a primeira vez que um embaixador era
comido no estrangeiro.
The portuguese custard tart, o pastel embaixador. Se calhar era
isto que o ministro queria dizer.
Escreve à sexta-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia