O que têm em comum as melhores empresas mundiais e os atletas de elite?

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Bastou uma publicação, com uma curtíssima legenda (duas palavras e um ícone de polegar para cima), para que as notícias se multiplicassem - e as perguntas também. Cristiano Ronaldo, então ainda em isolamento por ter testado positivo para o novo coronavírus, publicou uma fotografia sua, e escreveu: "kaizen philosophy [seguido de um emoji like]".

Só no Instagram, onde o CR7 tem 242 milhões de seguidores, a publicação teve 9,8 milhões de gostos. Os títulos informativos escreveram amplamente sobre o tema, explicando em que consiste a filosofia que inspirou o melhor do mundo. Quem acompanhou o episódio ficou, contudo, com uma pergunta por responder: se esta é uma filosofia sobretudo aplicada nas empresas, que sentido faz que ela inspire um atleta de alta competição? Na verdade, a resposta é muito simples: faz todo o sentido. Aliás, é cada vez mais frequente ouvirmos e lermos sobre desportistas que abordam os seus hábitos com práticas inovadoras e que transbordam para outras áreas complementares, procurando paradigmas disruptivos. Ou seja, os atletas utilizam técnicas de gestão do seu dia a dia que se comparam às das melhores empresas. E o que ambas as abordagens têm em comum é Kaizen - Mudança para Melhor.

O desafio do Kaizen é a concretização dos objetivos disruptivos, mobilizando a transformação diária e sustentada da organização, para chegar a níveis de desempenho económico e financeiro de excelência.

Ao longo de décadas, a indústria japonesa adotou e aperfeiçoou o conceito Kaizen como chave da sua competitividade mundial. A cultura japonesa está orientada para a melhoria contínua do indivíduo e da sociedade, o respeito pelo bem-estar comum, a organização dos espaços, a gestão visual, a utilização das melhores práticas (os standards), com as rotinas de excelência, focalizando nas tarefas que acrescentam valor, eliminando o desperdício. Os resultados obtidos consistentemente, ano após ano, motivaram a aplicação do modelo de "Melhoria Contínua" nas empresas que pretendem ser líderes, fazendo crescer o negócio, os clientes, colaboradores, fornecedores e as comunidades.

Na experiência prática de uma organização, o desafio de aplicar Kaizen implica melhorar todos os dias, em todas as áreas, com todos os colaboradores. As empresas devem ser capazes de definir a missão, com a visão do negócio para um horizonte de três a cinco anos, com a seleção das prioridades estratégicas e colocando as iniciativas em ação, com uma gestão metódica, focada na melhoria dos processos, compromisso dos líderes, responsabilização e participação de todas as pessoas.

Os atletas de elite são desafiados a alcançar a excelência na performance, num determinado momento específico, tendo por base um sonho por concretizar (a Missão), os objetivos definidos (a Visão), com uma estratégia de preparação de longo prazo (prioridades estratégicas), um plano de treino, de competição (as iniciativas), com um percurso, práticas diárias, rotinas de elevada exigência. A vertente física está reforçada com especialistas das áreas da Nutrição, do Sono, da Recuperação, da Fisioterapia e outras vertentes associadas à otimização corporal. Os temas emocionais, com aumentos de capacidade de concentração, de automotivação, de confiança, gerando suplementos de eficácia no desempenho desportivo. A parte intelectual, conseguindo antecipar e compreender cada instante da competição, com processos de decisão complexos, mas necessariamente lógicos e coerentes.

Os atletas de elite servem de modelo para milhões de seguidores, com exemplos que devem inspirar todos nós, mesmo os não desportistas. Qualquer profissional, de qualquer área, pode alavancar as suas capacidades e resultados, utilizando diariamente uma abordagem de exigência e excelência, nos rituais, hábitos e comportamentos, considerando-se como um atleta de elite na sua área e a sua empresa como uma equipa de alta competição - mesmo fora de campo.

Tiago Costa, senior partner do Kaizen Institute Western Europe

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