1. Parece que Portugal se transformou num
país de empreendedores. Há-os por todo o lado e de todos os
estilos. Só à StartUp Lisboa, a maternidade de empresas
tecnológicas criadas por João Vasconcelos com o
apoio da Câmara de Lisboa, Montepio, Portugal Telecom e KPMG, já
chegaram mais de mil candidaturas, cem foram aceites e entraram no
programa que as pode ajudar a dar os primeiros passos ou então a
mudar de vida.
2. Há empresas a nascer como nunca em
Portugal e isto também é fruto dos tempos. O mercado de trabalho
está péssimo e vai continuar mau durante anos, o melhor é dar
corda aos sapatos. Mas há outra alteração significativa: hoje,
quem sai da universidade já não tem como objetivo ir a correr para
uma multinacional. Adaptando uma frase de Philip Roth - que o
escritor usa para definir o casamento -, ninguém sai de uma prisão
de alta segurança (uma universidade) para ir a correr para outra
prisão de alta segurança (uma multinacional). Enterrar--se numa
consultora, apodrecer num banco, enlouquecer numa redação, definhar
num escritório, desperdiçar os neurónios para os senior partners
passearem de Porsche Cayenne não está a dar. Se na geração com
menos de 40 anos este impulso fazedor já era evidente, abaixo dos 30
isso é ainda mais forte.
3. Não é, aliás, apenas um impulso. É
uma vocação. É uma alteração sísmica na maneira de encarar a
vida que, embora tendo que ver com o momento económico, também se
justifica pela evolução natural do país. Já não somos o Portugal
dos mangas de alpaca, embora ainda os haja, como também ainda
subsiste aquela espécie diabólica que justifica o seu estado de
torpor permanente e inação congénita apontando para as costas do
"patrão Vasques", personagem de Fernando Pessoa. Cito o poeta:
"Lembro-me já dele [o Vasques] no futuro com a saudade que sei que
hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores
de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não
faço agora, e buscarei, para a continuar a não ter feito, desculpas
diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim." É isto, não é?
4. Mas este despertar empresarial que
existe, que já não vive apenas nos discursos de palanque recheados
de anglicismos e banalidades, não é também o delírio coletivo com
que é vendido por aí. Há uma mudança de atitude que tardou, sim,
mas finalmente chegou e já não volta atrás. É filha da crise que
afunila as escolhas tradicionais. Mas também é fruto da maior
preparação (informação, sabedoria, isto é, liberdade) das
gerações mais novas que não querem ficar amarradas ao país,
preferem fazer dele um ponto de partida. Acontece que esta dinâmica,
que vai muito além dos antigos projetos empresariais que se
limitavam, cheios de voluntarismo, ao café e à loja de bairro,
também passa por, na maioria dos casos, microideias com
microestruturas sem capacidade para ganhar escala. São um início,
são uma fonte de energia limpa essencial para uma economia mais
saudável, mas não são suficientes para criar a riqueza de que o
país precisa para funcionar nos padrões sociais desejáveis. Para
isso são também precisas as grandes empresas nacionais privadas,
embora capazes de viver sem a mão comprida do Estado que cobra
sempre duas vezes.
que sorte a nossa ela ter tão boas ideias e fibra para as
concretizar.