Obama. "Não há muros suficientemente altos para conter quem tem fome"
Barack Obama acredita que o sucesso do combate às alterações climáticas passa pela mobilização das populações, mais do que pela imposição política. Até porque as políticas mudam, consoante os atores. "Precisamos que as pessoas se tornem cada vez mais conscientes das alterações climáticas e do que isso representa. Precisamos de dar esse poder aos cidadãos para que estes obriguem os seus governos a tomarem medidas, porque este é um problema que não se vai resolver de cima para baixo, mas a partir das bases", defende. E alerta: "Não há muros suficientemente altos para conter quem tem fome".
O ex-presidente dos Estados Unidos, que falava na cimeira Climate Change Leadership, no Porto, fez a ligação entre as alterações climáticas e as migrações. "Podemos ter a certeza que vamos ter movimentações em massa de pessoas em todo o mundo. Porque, mais tarde ou mais cedo, quem tem fome, arrisca", sublinhou, lembrando que foi a "seca persistente" na Síria que levou os agricultores para as cidades. "Acredito nos especialistas e na ciência. Sei que há quem não acredite, mas a resposta não é uma política popular que rejeita a ciência é encontrar um compromisso cívico comum", sublinha.
Para Barack Obama é tudo uma questão de conseguir que as empresas e as pessoas entendam que o custo-benefício da adoção de medidas que permitam reduzir as emissões poluentes lhes é benéfico. E deu o exemplo da sua presidência, iniciada em 2009, "no decurso da pior crise financeira mundial" do último século, e em que procurou "usar a crise como uma oportunidade" para incentivar o investimento privado no combate às alterações climáticas. Uma estratégia que permitiu "aumentar os investimentos em energia solar e eólica, criar emprego e reduzir as emissões poluentes".
A "má notícia", gracejou, é que o seu sucessor, Donald Trump, "não concordou comigo e reverteu" grande parte das medidas, a boa, diz, "é que muitos dos hábitos já se enraizaram e muitas empresas já perceberam que a adoção de medidas amigas do ambiente se traduz numa redução de custos e numa melhor performance". E, por isso, apesar da reversão política, "continuamos a ver resultados ao nível da redução de emissões", argumenta. Razão porque se manifesta convicto de que os Estados Unidos acabarão por voltar ao Acordo de Paris.
Até porque, lembra o 44ª presidente dos Estados Unidos, este é um problema só pode ser combatido em colaboração multinacional. "Não vamos conseguir resolvê-lo sozinhos", diz, recordando que o objetivo é comum a todos: "Queremos conquistar um futuro melhor para os nossos filhos". Às empresas Obama deixou uma recomendação: "Publicitem os impactos das alterações climáticas nos vossos negócios, associem-lhes um preço".
A cimeira Climate Change Leadership é uma iniciativa conjunta da Taylor's, da Câmara do Porto, da revista de Vinhos, da Associação Comercial do Porto, do Instituto da Vinha e do Vinho, da Advanced Leadership Foundation e do The American College in Spain e que contou com o apoio do Turismo de Portugal, da Sonae, da Amorim, da BA Vidros, do Continente e da PwC. Empresas que se uniram na criação do Protocolo do Porto, um acordo de compromisso de união de esforços para a criação de uma base de dados para combater as alterações climáticas. Um documento que pretende um maior esforço por parte das empresas para enfrentar um problema “que toda a humanidade partilha, mas que tem um impacto direto no setor agrícola”. Um protocolo que Barack Obama espera que "venha a ser assinado por centenas de empresas por todo o mundo".
Das muitas individualidades que marcaram presença no Coliseu do Porto, para ouvir Barack Obama, mas, também, Mohan Munasinghe, ex-vice-presidente do painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas e Prémio Nobel da Paz 2007, Irina Bokova, antiga diretora geral da UNESCO, e Juan Verde, presidente da Advanced Leadership Foundation, destaque para o ministro da Economia. Uma conferência "muito interessante, a desafiar-nos para a ação, para que apostemos nas energias renováveis, de uma forma competitiva, e também na economia circular que tem sido uma aposta grande deste governo num trabalho conjunto do Ministério da Economia e do Ambiente e com um empenho muito grande em encontrar soluções tecnológicas mais sustentáveis mas que, ao mesmo tempo, promovam novas indústrias e novas respostas", frisou Manuel Caldeira Cabral.
Já o principal impulsionador da cimeira, o presidente da Taylor's, destaca a "grande dignidade e capacidade de liderança" de Barack Obama que, diz, "lamentou não ter mais tempo em Portugal", mas prometeu "voltar no futuro para uma visita privada". Visivelmente satisfeito com a iniciativa e as palavras de Obama, Adrian Bridge lembra que o trabalho começa agora. "Lembrem-se, vamos todos diminuir o nosso impacto ao nível das alterações climáticas", frisou.
