A Alemanha, a maior economia europeia e um dos maiores parceiros económicos de Portugal, deve afundar numa recessão de 0,7% em termos reais, no ano que vem, e grandes economias europeias e outras estão a caminho da estagnação, indica o panorama económico intercalar da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), divulgado nesta segunda-feira..Este ano a Alemanha só deve crescer 1,2% e em 2023 a economia perde 0,7%. As outras grandes economias europeias, das quais Portugal também está muito depende, vão ser arrastadas pela atual crise de inflação e energia..Segundo prevê agora a OCDE, em 2023, França, segunda maior economia europeia, vai crescer uns míseros 0,6%, Itália estará quase estagnada (mais 0,4%) e Espanha não deve ir além dos 1,5% de crescimento real no ano que vem..A zona euro como um todo deverá subir uns marginais 0,3%, com uma inflação esperada de 6,2% em 2023. E de 8,1% este ano, diz a OCDE..Com inflações destas, é de esperar que o Banco Central Europeu (BCE) continue a cavalgada na subida das taxas de juro para travar a inflação. No entanto, vai começar a apertar os mais endividados e a cortar o financiamento barato a famílias, empresas e governos..Europa não vai sozinha ao fundo.Mas os países europeus não vão sozinhos ao fundo na degradação da atividade, nem na escalada da inflação..Segundo diz agora a OCDE, o Japão, outra das economias gigantes mundiais, deve crescer apenas 1,4%, o Reino Unido estagna (0%), a economia dos Estados Unidos, a maior do mundo, que não depende assim tanto da energia russa, só deve avançar uns débeis 0,5% no ano que vem depois de apenas 1,5% este ano, estima a organização dos países ricos, liderada pelo secretário-geral, Mathias Cormann..A Rússia, o país que invadiu a Ucrânia em fevereiro passado e acelerou o ambiente inflacionista que já estava semeado desde finais de 2021, sofre uma contração económica de 5,5% este ano e em cima desta uma quebra de 4,5%, muito por força das sanções económicas que lhe foram impostas pelo Ocidente em jeito de retaliação face à guerra..Mas a esmagadora maioria das economias perde com a situação bélica, que deprime o comércio mundial e faz subir os custos de financiamento (juros)..O Brasil também caminha para a estagnação (0,8% no ano que vem), a China, país habitado a crescer 8% e 10%, só avança 4,7% em 2023 (depois de 3,2% este ano), a Índia, outro gigante global, abranda para 5,7%, prevê a organização sediada em Paris..Mundo perde 2,8 biliões dólares num ano."A economia global perdeu força na sequência da guerra de agressão da Rússia na Ucrânia, que está a arrastar o crescimento para baixo e a colocar uma pressão adicional ascendente sobre a inflação a nível mundial", dizem as novas perspetivas económicas da OCDE..Assim, este outlook projeta um crescimento global para 3% este ano, "antes de abrandar ainda mais para apenas 2,2% em 2023"..Este valor "está muito abaixo do ritmo de crescimento económico projetado antes da guerra e representa cerca de 2,8 biliões de USD [dólares] em perda de produção global em 2023".."A guerra fez subir ainda mais os preços da energia, especialmente na Europa, agravando as pressões inflacionistas numa altura em que o custo de vida já estava a aumentar rapidamente em todo o mundo devido aos impactos prolongados da pandemia da Covid-19".."Com as empresas de muitas economias a enfrentarem custos mais elevados de energia, transporte e mão-de-obra, a inflação está a atingir níveis nunca vistos desde os anos 80, forçando os bancos centrais a apertarem os parâmetros da política monetária [juros, custo do dinheiro] mais rapidamente do que o previsto", observa a OCDE..Neste quadro, "a inflação e o choque no fornecimento de energia resultantes da guerra levou a OCDE a rever as suas anteriores projeções de crescimento em baixa, a nível mundial".."O crescimento anual do PIB [produto interno bruto] deverá abrandar para cerca de 0,5% nos Estados Unidos em 2023, e 0,25% na zona euro, com riscos de declínios mais profundos em várias economias europeias durante os meses de inverno.".China é uma sombra do que já foi."O crescimento na China também foi atingido e prevê-se que desça para os 3,2% previstos em 2022. Com exceção da pandemia de 2020, esta será a taxa de crescimento mais baixa na China desde os anos 70", relembra a OCDE.."Prevê-se que a inflação diminua gradualmente até 2023 na maioria dos países do G20, à medida que uma política monetária mais restritiva se torna efetiva e que o crescimento global abranda" e prevê-se que a inflação global diminua de 8,2% este ano para 6,6% em 2023 nas economias do G20, e caia de 6,2% este ano para 4% em 2023" nessas 20 principais economias avançadas, refere a entidade no novo estudo..Mas neste contexto, as economias vão ficando cada vez mais fracas. "A economia global perdeu dinamismo na sequência da guerra de agressão não provocada, injustificável e ilegal da Rússia contra a Ucrânia. O crescimento do PIB estagnou em muitas economias e os indicadores económicos apontam para um abrandamento prolongado", disse o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, na apresentação do novo outlook.."As pressões inflacionistas que já estavam presentes na altura em que a economia global emergia da pandemia foram gravemente agravadas pela guerra. Esta situação alimentou ainda mais o aumento dos preços da energia e dos alimentos que agora ameaçam os padrões de vida das pessoas em todo o mundo", avisou o economista..Em cima disto, a OCDE aponta para "uma incerteza substancial sobre as perspetivas económicas, com riscos significativos no sentido de quebras adicionais"..Um inverno agreste no mundo rico: mais pobreza e frio.Estes riscos são "a possibilidade de novos picos de preços dos alimentos e da energia, que podem empurrar muitas pessoas para a pobreza, bem como a possibilidade de escassez de gás à medida que o inverno avança no hemisfério Norte", congelando ainda mais a atividade de muitas economias ricas e desenvolvidas.."A redução do consumo de energia e a diversificação das fontes de abastecimento são cruciais para evitar a escassez", pois a tendência é de "subida nos preços globais da energia, o que prejudicaria a confiança e provavelmente pioraria as condições financeiras e exigiria um período temporário de redução forçada da utilização de gás por parte das empresas", refere a OCDE.."No seu conjunto, estes choques poderiam reduzir o crescimento das economias europeias em mais de 1,25 pontos percentuais (p.p.) em 2023, relativamente à projeção central do nosso outlook, e aumentar a inflação em mais de 1,5 pontos percentuais. Isto empurraria muitos países para uma recessão de um ano inteiro em 2023 e depois o crescimento do PIB também sairia enfraquecido em 2024.".(atualizado 10h25)