Quem tem empréstimos bancários para pagar não vai ter a vida facilitada até ao final do próximo ano, pelo menos, avisa a OCDE.
De acordo com o novo panorama (outlook) económico da Organização para a Cooperação e do Desenvolvimento Económico (OCDE), divulgado esta quarta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) vai subir taxas de juro mais algumas vezes este ano, colocando a taxa diretora de referência (taxa de refinanciamento) em 4,25% até final do terceiro trimestre (setembro).
Depois, este nível máximo do custo do crédito na zona euro deverá manter-se assim até ao final de 2024, diz a OCDE.
Significa, pois, que se o BCE prosseguir as subidas das suas taxas de juro a um ritmo de 0,25 pontos percentuais em duas das suas próximas três reuniões de política monetária (15 de junho, 27 de julho e 14 de setembro), chegará ao referido máximo de 4,25%.
Será preciso recuar mais de 13 anos, a junho de 2000, ainda o euro não existia como moeda circulante, para encontrar um valor tão elevado.
Recorde-se que as taxas centrais da zona euro estiveram em níveis virtualmente negativos, em zero ou coladas a zero durante quase oito anos (desde setembro de 2014 até julho do ano passado, quando começaram finalmente a subir).
Segundo a OCDE, este ano, "o BCE prosseguiu com a sua política monetária mais restritiva, mas são necessários novos aumentos das taxas diretoras para reduzir de forma duradoura as pressões inflacionistas subjacentes que estão a fazer subir os preços".
"É provável que seja necessário um período de crescimento abaixo do potencial para ajudar a reduzir as pressões sobre os recursos, incluindo os efeitos a curto prazo das despesas públicas adicionais associadas ao programa Next Generation EU (NGEU, o quadro normal plurianual de fundos europeus)", onde cabe ainda o Programa de Recuperação e Resiliência (PRR).
Assim, refere a organização sediada em Paris, "projeta-se que a taxa principal de refinanciamento do BCE suba para 4,25% no terceiro trimestre de 2023 e que permaneça inalterada neste nível durante o resto do período de projeção", que termina em 2024.
Zona euro voa baixinho e risco de recessão existe
Com este aperto monetário, o crescimento real (descontando a inflação) da zona euro deve abrandar para apenas 0,9% este ano, recuperando depois para 1,5% no próximo, de acordo com as novas previsões da OCDE.
A inflação da zona euro, que este ano ficará nos 5,8% (média), descerá para 3,2% em 2024, um valor nada satisfatório para o BCE, que tem como objetivo ancorar o ritmo dos preços do consumidor nos 2% a médio prazo. Portanto, diz a OCDE, há riscos "negativos" que podem levar Frankfurt a subir ainda mais os juros, o que pode precipitar a área do euro numa recessão.
"Projeta-se que o crescimento trimestral da zona euro abrande em 2023, num quadro de preços ainda elevados na energia e nas matérias-primas, de persistência de estrangulamentos na oferta e de condições de financiamento mais restritivas".
"Apesar do crescimento robusto dos salários, a inflação dos preços no consumidor de 5,8% em 2023 significará um crescimento negligenciável do rendimento disponível real e isso afetará o consumo privado", considera a OCDE.
"O investimento será travado pela elevada incerteza e por condições de financiamento mais rigorosas, embora as despesas adicionais ligeiramente inferiores a 1% do PIB (Produto Interno Bruto) por ano ao abrigo do programa NGEU moderem esse abrandamento."
Adicionalmente, a OCDE prevê que "a inflação total registe uma ligeira moderação em 2023, com a descida dos preços da energia e o crescimento interno moderado a ajudarem a conter as pressões sobre preços e custos".
Mesmo assim, "a inflação subjacente [sem energia e alimentos] deve permanecer acima do objetivo do BCE para a inflação no final de 2024".
Portanto, "os riscos para as projeções vão no sentido descendente". Podem ser piores.
Segundo a Organização, "a crise energética pode ser reacendida por uma maior procura de gás natural liquefeito por parte da China ou por efeitos não intencionais das sanções ocidentais contra o petróleo russo, especialmente perto ou durante o próximo inverno".
Além disso, "as tensões relacionadas com o comércio continuam a preocupar". "Uma maior fragmentação das cadeias de abastecimento mundiais e os obstáculos ao comércio podem afetar a procura externa dirigida à zona euro e contribuir para novas pressões inflacionistas".
Mais: "Os riscos para a estabilidade financeira também estão a aumentar. As tensões resultantes de uma política monetária mais restritiva poderão intensificar-se, especialmente entre os intermediários financeiros não bancários".
Deste modo, a OCDE avisa que "uma política monetária muito mais restritiva pode também aumentar o risco de recessão" na zona euro.
Em compensação, "do lado positivo, o fim duradouro da guerra na Ucrânia pode aliviar a pressão ascendente sobre os preços da energia e dos alimentos" e "a recuperação mais forte da China também pode aumentar a procura externa", acena a OCDE no novo outlook para os mais de 30 países considerados mais desenvolvidos do mundo.