Onde estão os programadores?

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Não vou entrar na polémica sobre as vantagens que a Web Summit trouxe para a Lisboa (sim, é mais para Lisboa). Não tenho dúvida nenhuma de que para o empreendedorismo em Portugal tem sido um evento fantástico e marcante. O facto de a comunicação social e certos setores da sociedade terem ficado empolgados foi, talvez tenha alguma coisa que ver com a falta de autoconfiança dos portugueses, algo que sempre notei. Para muitos, parece inacreditável que possa acontecer um encontro tão importante em Portugal... Mas estou a divagar, pois o que que realmente gostava de contar é uma das conversas que tive com algumas empresas internacionais na Web Summit.

Representantes de três empresas gigantes com quem eu falei (por coincidência, todas elas com sede na Alemanha) mostraram uma grande vontade de ter uma presença em Portugal (i.e., Lisboa). Porque como disse um: É um no brainer; o tempo está fantástico (na verdade o tempo esteve muito bom nos dias da cimeira); a cidade de Lisboa é muita bonita; e, o mais importante, os portugueses aprendem rapidamente (essa empresa já tem alguns colaboradores informáticos portugueses e diz que têm uma vantagem que é o estarem dispostos a aprender); e, por último, a cereja no topo do bolo, um engenheiro português custa muito menos do que um engenheiro alemão. Mas vocês têm um problema, disse ele - vocês têm poucos engenheiros informáticos. “Para nós seria um fator decisivo entre sediar em Lisboa ou, por exemplo, em Sófia (Bulgária).”

Na realidade, Portugal tem uma falta de engenheiros, especialmente nas áreas relacionadas com a informática. Segundo algumas estimativas há uma falta de 5000 engenheiros informáticos. De acordo com a consultoria Michael Page, desde novembro de 2016 a procura em Portugal quase duplicou, fazendo aumentar também os salários em 15%. Eu estive a olhar para os dados do ingresso nas diversas universidades públicas do país (na primeira fase), e para Engenharia Informática houve menos de 1400 vagas. É um número largamente insuficiente para Portugal conseguir entrar na fase seguinte neste caminho recente notável de empreendedorismo. Qualquer uma das três empresas com quem eu falei, acharam que no mínimo gostava de contratar cerca de 200 engenheiros de informática. É verdade que o país é pequeno, mas mesmo comparando com um país ainda mais pequeno como a Lituânia, por exemplo, é preciso que as universidades alinhassem com a estratégia nacional de promoção de empreendedorismo.

Há cerca de 10 anos (numa altura em que dava palestras em diversas partes do país a tentar desmistificar o empreendedorismo), eu falava da necessidade de ter um plano de 20 anos para Portugal se tornar um país dinâmico em termos das startups. Já passaram 10 anos, e volto infelizmente a colocar o prazo temporal em 20 anos. Pois, o nosso sistema de ensino, desde o básico, tem de ter um relacionamento mais inteligente e natural com tecnologia. Falei, por exemplo, da necessidade de introduzir programação nas escolas (substituindo muita das matérias dadas nas disciplinas atuais de TIC). Na Finlândia, as escolas começaram a dar aulas de programação no ensino primário, e não tenho dúvidas de que é uma das razões por que esse país tem tantas startups a desenvolver aplicações móveis e programas informáticos. Em 2012, a Estónia lançou um projeto para ensinar crianças e jovens de 7 a 19 anos a escrever códigos de programação, consistindo no programa ProgeTiiger, um software que ensina desde lógica básica às linguagens de programação Java e C++. Sei que, no próximo ano, será implementada aulas de Programação em todas as escolas do ensino básico através da disciplina de TIC. É uma medida importante (se for bem aplicada), e só é pena não ter chegado mais cedo!

Soumodip Sarkar, Professor catedrático da Universidade de Évora

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