No outro dia, ouvi alguém a fazer um comentário em referência a um empreendedor de sucesso: “Pois não admira, está nos genes dele.” Mas será?
Determinam realmente os genes quem nós somos, aquilo que somos e o que fazemos? Possuímos livre arbítrio, ou estamos condenados ao que está escrito no nosso código genético? Podemos inspirar-nos e ser criativos, movers ou a ser empreendedores? Ou, pura e simplesmente, devemos render-nos ao facto de termos nascido assim?
Na sua edição de abril de 1998, a revista Life continha uma história de capa com o título provocante Were You Born That Way? O artigo continha fragmentos de uma pesquisa supostamente ligando genes a vários traços de personalidade. Ao passo que o título da peça sugeria uma abertura à questão, o subtítulo, no entanto, implicava que o debate se aproximava da sua conclusão, com as características genéticas a saírem vencedoras: Personality, temperament, even life choices. New studies show it’s mostly in your genes.
É há muito sustentado que muitas das características físicas individuais, tais como a cor dos olhos, do cabelo, da pele e assim por diante, são herdadas dos genes dos nossos antepassados. A evidência científica tem vindo crescentemente a sugerir que a probabilidade de possuir certas alergias, assim como certas doenças, incluindo o cancro, diabetes e Parkinson - entre muitas outras - é também determinada geneticamente.
Muitos proponentes da teoria de predisposição genética vão um pouco mais longe e alegam que características individuais mais abstratas estão também geneticamente codificadas nas pessoas. Por exemplo, traços individuais tais como a inteligência, propensão para atividades criminais, agressão, distúrbios emocionais e até a orientação sexual estão codificados geneticamente.
A ideia de que a inteligência é em grande parte hereditária encontrou uma voz poderosa nos trabalhos do professor de psicologia de Harvard, Richard J. Hernstein. Em 1994, pouco antes de morrer, o best seller de Hernstein, The Bell Curve, foi publicado. Escrito em parceria com o cientista político Charles Murray, o seu livro utilizava a análise estatística para explicar a variação de inteligência na sociedade americana.
A parte mais controversa do livro continha o suposto papel dos genes na explicação de diferenças étnicas. Utilizando análises estatísticas, as variações na inteligência dos negros e brancos norte-americanos foram medidas por classificações de coeficiente de inteligência que revelaram seguir duas distribuições normais diferentes. Baseando-se nesta diferença, os autores alegam que os negros, tomados como um grupo, possuem menos inteligência do que a população branca. Outra alegação importante do livro é que o baixo QI está altamente correlacionado com comportamentos antissociais.
O argumento “natureza” do debate tem frequentemente alavancado o papel dos genes não apenas para justificar comportamento e características individuais mas também para explicar tendências sexuais, assim como também utilizou os genes para traçar perfis raciais. No que toca ao empreendedorismo também têm sido utilizadas tendências genéticas e culturais. Parece que sim, os empreendedores nascem assim. Se for verdade, então não devemos apostar nos genes em vez de nas pessoas?!
Professor doutorado em Empreendedorismo na Universidade de Évora