Opinião: O Brasil limpa debaixo do tapete

Lidiane Leite, conhecida como “a prefeita ostentação”, foi condenada esta semana a pagar 50 vezes aquilo que desviou.
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Numa tarde de Agosto de 2015, Lidiane Leite gastou 40 mil reais (cerca de 12 mil euros) na boutique Donna Moça, em São Luís, capital do Maranhão, um dos estados mais pobres do Brasil. À noite, dançou na exclusiva discoteca Pink Elephant. Por esses dias fez ainda uma lipoaspiração e uma prótese de silicone. O mundo ficou a sabê-lo através de uma sucessão de selfies nas redes sociais.

Nada de mais, não fosse Lidiane prefeita da decrépita Bom Jardim, cidade de 50 mil habitantes onde os professores não recebiam salário e a merenda não chegava aos alunos.

Prefeita por acaso – concorreu à última hora porque o marido, a braços com a justiça, temeu expor-se demasiado ao ser candidato – Lidiane não aceitou as críticas da população de Bom Jardim ao seu estilo de vida irrigado com dinheiro público. “Eu compro sim é o que eu quiser, gasto sim com o que eu quero, ‘tô’ nem aí para o que achem, beijinho no ombro para os recalcados”, respondeu ela nas redes sociais.

Bom Jardim é apenas um de 247 municípios do Brasil onde desde 2003 a polícia realizou operações por desvio de verbas municipais. Desses desvios, 70% afetaram a saúde e a educação, de acordo com estudo do jornal O Estado de S. Paulo do ano passado.

Um artigo publicado há cinco anos pelos pesquisadores da universidade PUC do Rio de Janeiro Claudio Ferraz e Diana Moreira concluiu que os alunos dos munícipios onde houve desvios tiveram pior nível de aprendizagem e taxas maiores de reprovação e evasão escolar. É a tradução científica, como se fosse necessário, de que os desvios dos milhares de Lidianes Leites Brasil afora têm consequências no mundo real.

Ainda no Maranhão, parte da verba de 36 milhões de reais [perto de 12 milhões de euros] enviada pelo governo federal para 13 unidades de saúde do estado acabou nos bolsos de gestores públicos que a usaram, segundo investigação policial, na compra de vinhos importados de uma adega de luxo e em refeições em restaurantes de topo. Para marcar mamografias num dos hospitais a que se destinava o dinheiro, mulheres precisam de fazer fila a partir da uma hora da manhã por falta de médicos e de infraestruturas.

Sergio Cabral, o cleptocrata ex-governador do Rio de Janeiro, desviou 270 milhões de reais [cerca de 85 milhões de euros] dos cofres do estado para sustentar a sua vida de marajá.

Enquanto Cabral segue detido em Bangu, parte desse dinheiro foi recuperado pela autoridades e já serviu para pagar o 13º mês atrasado dos funcionários públicos de um Rio em estado de calamidade financeira.

Os três principais líderes do crime da adega de luxo estão detidos desde Outubro. E Lidiane Leite, conhecida como “a prefeita ostentação”, foi condenada esta semana a pagar 50 vezes aquilo que desviou.

O Brasil está a tirar a imundície de debaixo do tapete – e como repugna ver a sujidade escancarada – mas pelo menos decidiu limpar a casa.

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