Opinião: O fim do helicóptero do dinheiro

A opinião de Miguel Gomes da Silva, head of trading do Montepio
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Gerir uma crise financeira numa Europa alargada não tem sido tarefa fácil para a autoridade monetária. Quando já nada mais havia a fazer, depois de baixar taxas e anunciar vários programas de compras de activos financeiros, o Banco Central Europeu ameaçou lançar a “bazuca”.

Ou seja, fazer o possível e o impossível para evitar que a inflação na zona euro escorregasse de forma estrutural para terreno negativo.

Uma das soluções de que muito se falou na altura foi a de distribuir dinheiro vivo pelos agregados familiares. Ficou conhecido por helicopter money, e é, talvez, o mais poderoso instrumento de política monetária não convencional. Depois de um Quantitative Easing que teimava em não dar resultados, esta parecia ser a única solução. Chegou a ser fortemente equacionada em economias onde as taxas de juro eram mais negativas, como a japonesa.

Há dias, passando os olhos por um jornal distribuído entre a diáspora portuguesa, cruzei-me com um artigo do economista Rui Martins dos Santos, autor do livro “Make Money, Not War”.

Nele, compara-se a compra de dívida pública por parte dos bancos centrais à emissão de moeda. Uma espécie de helicopter money disfarçado. Diz o autor que, “na Europa, uma política de criação de moeda consignada ao pagamento de pensões de pessoas acima de uma dada idade e por valores até um dado limite, resolve em definitivo, o problema de financiamento do sistema de pensões; permite uma distribuição de benefícios pelos vários Estados membros e confere ao Banco Central Europeu um alvo ideal, para distribuição de poder de compra a pessoas inactivas com uma elevada propensão a consumir.”

Este conceito não é mais do que o tão badalado helicóptero que sobrevoaria as cidades lançando notas de euro pelo ar. Seria uma ideia absurda não fora ter sido verdadeiramente equacionada pelo Japão e encarada como o último recurso para estimular o consumo e evitar que o modelo económico actual colapsasse devido às taxas de inflação negativas.

Não será, ainda, em 2018 que teremos helicópteros a despejar notas de 500 euros nos céus. O recente sinal de redução do programa de estímulos do BCE e a aguardada subida da taxa de juro do euro parecem ser indícios de que a estabilização da política monetária voltará, em breve, a assentar nos mecanismos de controlo convencionais.

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