Há poucos dias, estive a ler uma história duma startup portuguesa, que teve algum sucesso internacional, que utilizava uma app inovadora para ajudar atletas a melhorar o seu performance e e diminuírem as lesões. Tendo recebido cerca de 8 milhões só de um capital de risco (Portuguesa) pública, a startup fez noticias por ter fechado, despedindo perto de trinta colaboradores.
O que é me espantou, não foi que a empresa fechou, mas a forma como o seu “falhanço” foi recebida na comunidade dos empreendedores em Portugal, e também os comentários que li nas redes sociais. Vários dos comentadores criticaram a empresa por ter “roubado” dinheiro publico. Outros acusavam o capital de risco de ter concedido à uma empresa que eventualmente fechou.
Eu não tenho conhecimento se a startup era bem gerida ou não, ou se a sua tecnologia realmente acrescentava valor para atletas, profissionais ou amadores. Também não tenho conhecimento se o capital do risco fez uma boa aposta, ou geriu duma forma inteligente e perspicaz em investir na empresa. Só posso dizer uma coisa: no mundo de startups, falhanço é uma norma e não uma excecão.
O escritor e humorista Mark Twain disse uma vez: “Eu raramente estou apto a ver uma oportunidade até que ela deixe de existir.” Empreendedores, e as empresas empreendedoras, especialmente as mais inovadoras, não têm medo do risco. Isto também quer dizer que elas têm uma grande possibilidade de falhar. Mas uma cultura, um ambiente que apoia e aceita a possibilidade de falhar, é também um ambiente que promove mais a tomada de risco e o aparecimento de projetos inovadores, como é o caso dos EUA. A Europa em geral e Portugal em particular são mais renitentes em arriscar.
Num estudo de 2003 feito por Thomas Astebro, das 1091 invenções canadianas, apenas 75% alcançaram o mercado. Seis dessas ganharam retornos superiores a 1400%, mas 45 perderam dinheiro. Um gestor racional não avança! Nem investidores conservadores. Mas o empreendedor responde com os seus próprios sonhos, e o capital do risco existe precisamente para fazer apostas onde existe uma pequenas probabilidade do sucesso, e quando há sucessos, os retornos largamente ultrapassam e compensam o dinheiro perdido com casos de insucesso.
Equacionar o cancelamento do projeto com hipóteses de falhar é uma das características mais disfuncionais da cultura empresarial. Os gestores por vezes fazem o que for necessário para evitar que os seus projetos sejam mortos, mesmo que os factos recomendem outras coisas. E ficam relutantes a embarcar em projetos que sejam arriscados porque os erros não são tolerados. Os erros provocam o sucesso. Como o legendário jogador de hóquei no gelo Wayne Gretzke uma vez disse, “você falha 100% dos remates que não tenta.”
Um conhecido professor da área de inovação, Robert A. Cooper avisa: “Não faça a gestão do falhanço. Faça a gestão do custo do falhanço.” Os inovadores de sucesso fazem muitas experiências nas primeiras etapas de desenvolvimento dos produtos, usando protótipos para rapidamente fazerem testes e refinarem ideias do seu projeto.
Por exemplo a Toyota tolera a ambiguidade e encoraja as experiências para desenhar melhores automóveis. A empresa cria equipas de trabalho paralelas para o desenvolvimento de design de novos carros, reconhecendo que apenas um vai ser o escolhido. Contudo, o custo da redundância não é grave pois a Toyota pode explorar uma variedade de conceitos de design a um custo relativamente baixo nas primeiras etapas do desenvolvimento do produto. A Toyota percebe que o maior risco não é escolher o padrão errado, mas sim o próprio padrão não escolhido.
Ao falar com os meus alunos sobre os seus planos para o futuro, muitos declaram que gostariam de trabalhar por conta de outrem, para “ganhar experiência” antes de avançar com os seus próprios projetos. Alguns revelam os sonhos, que não seguem por medo de falhar. Numa terra onde nasceram alguns dos Homens da História que não tiveram medo em arriscar, isto é uma pena. É tempo de encorajar os nossos jovens a ter riscos e a fazer o que sonham, se queremos ver, nos dias que correm, homens como Vasco da Gama, Fernão de Magalhães ou Bartolomeu Dias!