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"Tempo para ter a carta de condução de táxi preto londrino é quase o mesmo que adquirir doutoramento numa das mais exigentes universidades do mundo"
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Para se ter uma carta de condução dos famosos táxis pretos londrinos, os candidatos têm de adquirir um conhecimento profundo da área de Londres. Sendo considerado o curso de condução mais exigente do mundo, o tempo de preparação de modo a passar todos os testes é em média de três a quatro anos. Ou seja, o tempo para ter a carta de condução de táxi preto londrino é quase o mesmo que o tempo necessário para adquirir um doutoramento numa das mais exigentes universidades do mundo!

Recentemente, dois investigadores da University College London começaram a estudar se o árduo processo de aprendizagem dos candidatos a taxistas tem algum impacto nos seus cérebros. Em concreto, queriam perceber se o processo de obtenção da carta provoca alguma alteração na estrutura do cérebro. No final do estudo, os dois neurocientistas seguiram um grupo de 79 candidatos a taxista e 31 condutores de outros veículos que não táxis, que constituem o grupo de controlo.

Os resultados da sua pesquisa foram publicados no jornal Current Biology na edição de dezembro de 2011. No início do estudo não foi detetada qualquer diferença, nem na estrutura cerebral (analisando a ressonância magnética) nem nos resultados de ambos os grupos nos vários testes de memória. Dos 79 candidatos, 39 tornaram-se taxistas londrinos. Os restantes candidatos, ou não passaram os testes ou desistiram.

Os investigadores fizeram então ressonâncias magnéticas à estrutura cerebral dos candidatos, assim como estudos à sua performance em teste de memória. Os testes foram feitos aos três grupos de análise, aos 39 que obtiveram a carta de taxista, aos 40 que não se tornaram taxistas e ao grupo de controlo. Desta vez a ressonância magnética revelou diferenças significativas no posterior hippocampus. Esta zona cerebral é responsável pela consolidação de informação, pela memória e também pela capacidade de navegação espacial.

Neste exame foi descoberto que os candidatos que se qualificaram como taxistas tinham um maior volume de matéria cinzenta nessa zona cerebral do que tinham no início do treino. Relativamente aos testes de memória, os investigadores descobriram que ao fim de três ou quatro anos, ambos os grupos que passaram pelo treino, tiveram melhores resultados do que o grupo de controlo.

O estudo conclui, assim, que o cérebro humano permanece “plástico”, mesmo durante a vida adulta, o que permite a adaptação aquando da aprendizagem de novas tarefas.

Qual é a moral desta história? O treino intensivo não leva apenas à aquisição de conhecimento, mas também altera a própria estrutura do cérebro, o que abre portas ao incentivo da aprendizagem ao longo da vida. Trabalho persistente, e não apenas os genes, podem determinar a nossa estrutura mental. E neste reside a génese de história de empreendedorismo de sucesso.

Professor doutorado em Empreendedorismo da Universidade de Évora

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