Opinião. Um “gene queniano”?

É verdade que em certas modalidades desportivas existe um claro domínio de certas nações. Este é o caso, por exemplo, dos maratonistas quenianos.
Publicado a

Se for verdade, então não devemos apostar nos genes em vez de nas pessoas?! Foi essa a pergunta que deixei junto aos leitores na minha última coluna. Será que são os genes que determinam quem nós somos, aquilo que somos e o que fazemos? Ou será que há outros fatores que determinam o que somos ou que podemos ser? Será que os empreendedores nascem assim, ou podem ser “promovidos”?

Os apologistas do determinismo natural do comportamento humano e os eugenistas que formam o seu núcleo, tentaram ao longo das décadas demonstrar a ligação entre traços individuais, tendências, diferenças culturais, assim como desvios sociais, às características genéticas. Sem surpresas, caíram também na tentação de ligar características de grupos bem-sucedidos à hereditariedade - de forma por vezes muito visível em alguns domínios, como nos desportos atléticos.

Um exemplo excelente pode ser encontrado no trabalho do jornalista Jon Entine, que publicou no ano 2000 um livro controverso intitulado Taboo: Why Black Athletes Dominate Sports and Why We’re Afraid to Talk about It. Neste compêndio de 340 páginas, Entine defende que o elevado desempenho de atletas negros - desde os velocistas jamaicanos aos corredores de fundo do Quénia e, até certo ponto, da Etiópia, assim como os basquetebolistas afro-americanos - devem a sua excelência a “genes de alta performance”. A concentração do sucesso em certos grupos é a prova necessária, como Entine defende: “Até ao ponto em que é um debate puramente científico, a evidência de superioridade dos atletas negros no atletismo é persuasiva e decididamente confirmada no campo. Atletas de elite que podem traçar a maior parte ou até toda a sua origem a África são, de longe, melhores do que a concorrência.”

É verdade que em certas modalidades desportivas existe um claro domínio de certas nações. Este é o caso, por exemplo, dos maratonistas quenianos. Atletas provenientes deste país da África Oriental têm dominado a disciplina da corrida de fundo nos últimos anos, de tal modo que hoje em dia é praticamente certo que um queniano irá vencer a maratona masculina nas corridas mais prestigiadas. Dos melhores dez maratonistas masculinos, tal como publicado no Running Times, oito são quenianos, um etíope, e apenas um americano, sendo que todos os primeiros cinco lugares são de pertença de quenianos.

Nos campeonatos do mundo de 2011, tanto as disciplinas de fundo como as de meio--fundo foram dominadas por atletas quenianos, os quais ganharam um espantoso total de 17 medalhas. Nos Jogos Olímpicos, desde a dramática corrida de Kip Keno para o ouro dos 1500 metros nos Jogos Olímpicos de 1968, homens e mulheres do Quénia venceram 21 medalhas em eventos de fundo, desde os 800 metros às maratonas.

Como quase se conseguem ouvir os eugenistas dos nossos dias alegar, certamente que tal domínio só se pode explicar pela existência de um “gene queniano”!

Este conteúdo fará parte do livro EntreSutra, deste autor, que sairá até junho, publicado pela Bloomsbury.

Professor doutorado em Empreendedorismo da Universidade de Évora

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt