2025: O Impacto do invisível

A inteligência artificial (IA) evoluiu de uma simples ferramenta transformadora para se tornar um fator decisivo na construção da relação de confiança entre consumidores, empresas e marcas.
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Em 2025 entrámos numa fase em que as microdecisões “invisíveis”, determinadas por algoritmos, estão cada vez mais sob escrutínio. Essas decisões automatizadas têm o potencial de influenciar, profundamente, o quotidiano das pessoas e a forma como as organizações são percebidas.

O poder silencioso das microdecisões

Um algoritmo que avalia candidatos para oportunidades de emprego, ou que determina a elegibilidade de um cliente para obtenção de um crédito à habitação ou de um seguro de saúde, exemplifica o impacto profundo das microdecisões automatizadas.

E se uma destas decisões favorecer o lucro em detrimento do bem-estar do utilizador? Ou, se perpetuar vieses nos dados de treino, discriminando inadvertidamente determinados grupos?

Essas escolhas, muitas vezes aparentemente triviais (pense, por exemplo, num algoritmo que define que tarefas priorizar, ou que seleciona a rota mais eficiente), quando bem implementadas podem criar valor significativo, ao aumentar a eficiência e melhorar a experiência do utilizador. No entanto, quando enviesadas ou opacas podem amplificar desigualdades ou comprometer a credibilidade de marcas.

Os consumidores estão cada vez mais atentos a essas microdecisões e, à medida que percebem o seu impacto, tornam-se mais exigentes em relação às práticas das empresas. Já não basta oferecer produtos ou serviços, as organizações são agora desafiadas a demonstrar transparência nas suas escolhas automatizadas e a assumir um compromisso claro com o uso ético da IA, protegendo os interesses individuais e promovendo valores que inspirem confiança e responsabilidade.

Capacitar para inovar com responsabilidade: o novo pilar da liderança

As organizações líderes já reconheceram que, para adaptar a cultura organizacional e assegurar que os princípios de uma IA responsável estão integrados em todas as decisões, é fundamental capacitar os colaboradores em todos os níveis — desde os gestores de topo até às equipas na linha da frente.

Compreender o que é a IA e como funciona no contexto diário não apenas maximiza o seu valor, mas também permite alinhar inovação, conformidade e propósito. Para que a adoção de IA gere confiança e impacto positivo, as empresas devem investir na construção de um governance ético sólido, suportado por programas de compliance específicos para IA e práticas de transparência eficazes.

Esse compromisso envolve a realização de assessments detalhados e a implementação de procedimentos robustos que garantam supervisão em todas as fases do ciclo de vida dos sistemas de IA, desde o desenho até à operação, e que promovam a transparência nos

critérios de decisão, assegurando que estes sejam claros, compreensíveis e acessíveis a todas as partes interessadas.

Transformar o invisível em liderança estratégica

Em 2025, a aposta em programas de compliance de IA que alinhem a transformação tecnológica às exigências regulatórias, será essencial para liderar num mercado onde confiança e inovação se complementam.

As empresas que compreenderem e controlarem as decisões “invisíveis” da IA estarão à frente, transformando o impacto do invisível em vantagem estratégica. Afinal, na era digital, o que não se vê pode ser o que mais importa.

Joana Pinto é Advogada especialista em Regulação Digital, Inteligência Artificial e Transacções Tecnológicas

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