60 Mil Milhões: Crescimento para Portugal ou Submissão Estratégica?

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Num momento em que se perspetivam investimentos significativos em infraestruturas, torna-se urgente discutir o modelo de desenvolvimento que o país pretende adotar para o setor da Engenharia e da Arquitetura. Num evento privado do setor, o secretário de Estado das Infraestruturas apresentou um plano ambicioso: 60 mil milhões de euros em investimentos para os próximos dez anos. Este anúncio deveria ser motivo de entusiasmo para o setor nacional de Engenharia e Arquitetura. Contudo, a visão apresentada para a execução destes investimentos levanta questões que importa realçar.

Tem ganho cada vez mais força a ideia de que a resposta a grandes investimentos depende, sobretudo, da entrada de grupos internacionais e da sua posição dominante no controlo de ativos estratégicos. Esta abordagem tende a assumir uma alegada insuficiência estrutural das empresas portuguesas do setor AEC (Arquitetura, Engenharia e Construção) e justifica o incentivo à aquisição de participações nacionais por capital estrangeiro ou a colocação de empresas locais numa posição de mera subcontratação no seu próprio território.

Esta ideia é contrariada pelo desempenho do tecido empresarial nacional do setor AEC ao longo da última década. Perante isto, o verdadeiro desafio está em garantir que os projetos públicos geram valor interno, impulsionam inovação, promovem formação especializada e consolidam empresas capazes de competir globalmente. Caso contrário, arriscamos a criação de uma dependência estrutural, onde oportunidades de grande escala se traduzem em perda de autonomia e diminuição do papel das empresas portuguesas na cadeia de valor e consequentemente o desaparecimento de empresários nacionais do setor AEC.

Portugal enfrenta assim uma encruzilhada estratégica: posicionar-se como mercado de execução ou afirmar-se como polo de criação, engenharia e liderança técnica.

Neste contexto, não seria mais sensato elevar os honorários das empresas portuguesas, permitindo-lhes reforçar as suas competências internas, contratar técnicos estrangeiros e recorrer a subcontratações especializadas para complementar as suas equipas? Mais do que isso, ao garantir que os contratos preveem honorários adequados para as empresas portuguesas, estar-se-ia a criar condições para que estas possam proporcionar aos seus técnicos condições alinhadas com as suas competências e responsabilidades, contrariando a atual asfixia da classe média deste setor.

Se o objetivo é construir um país com ambição tecnológica e industrial, então é imperativo assegurar que os grandes investimentos sirvam para potenciar quem já demonstrou capacidade, compromisso e visão de longo prazo.

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