A Exaustão dos Conselhos de Administração

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Parece haver um fenómeno crescente nas empresas, muitas vezes ignorado porque não cria crises visíveis e raramente chega aos relatórios: a exaustão silenciosa dos Conselhos de Administração. Não é burnout clássico, é um desgaste subtil, acumulado e profundamente prejudicial à qualidade das decisões, sobretudo num contexto em que a complexidade aumenta e os ciclos de decisão encurtam. É nos Conselhos que se concentra a maior incerteza e a complexidade decisional.

São estes órgãos que interpretam prioridades difusas, absorvem tensões internas e externas e tomam decisões que moldam o futuro e impactam resultados. Quando a pressão deixa de ser exceção e passa a ser rotina, instala-se uma erosão lenta da clareza, do foco e da capacidade de pensar, afetando não só a estratégia como também a confiança com que as decisões são tomadas. Não é falta de competência, é falta de espaço emocional, cognitivo e político.

E quando esse espaço desaparece, perdem-se discernimento, visão e qualidade de análise. O risco não é teórico: decisões rápidas substituem decisões certas, e a organização paga o preço em desalinhamento, perda de prioridades e ciclos sucessivos de correção.Muitos continuam a acreditar que o Conselho “aguenta sempre” , mas o preço da resistência contínua é a perda de lucidez. E é essa lucidez que garante direção, prudência e coerência estratégica. Sem ela, a governação torna-se reativa, fragmentada e vulnerável a pressões circunstanciais. Este desafio só se ultrapassa fortalecendo o governance com processos mais leves, prioridades claras, agendas desenhadas para permitir reflexão e um ambiente onde pedir apoio seja visto como maturidade.

Implica também distribuir melhor o peso das decisões, reforçar competências críticas e criar momentos estruturados de revisão estratégica que devolvam profundidade ao trabalho do Conselho. Não há soluções instantâneas, mas há caminhos seguros: criar condições para que o Conselho recupere tempo, lucidez e capacidade analítica. Em 2026, isso significa repensar o modo como os Conselhos trabalham: agendas mais curtas e profundas, discussões menos ritualizadas, um foco renovado na estratégia em vez da compliance e revisões estratégicas mais frequentes. Implica reconhecer limites, ajustar ritmos e garantir que o órgão máximo de decisão funciona com a serenidade que a sua responsabilidade exige, fortalecendo a capacidade de antecipar riscos e não apenas reagir a eles. No fundo, enfrentar a exaustão não é apenas proteger quem decide; é alinhar o funcionamento dos Conselhos com o que a governação moderna pede. E, no fim, não é a velocidade das respostas que assegura o bom rumo das empresas, mas a capacidade de preservar lucidez, a qualidade de decisão e a qualidade da governação.

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