A incerteza é o novo ‘bull’

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Na mesma semana em que finalmente a chuva e o mau tempo deram algumas tréguas ao território nacional, o sol também se mostrou radiante nas inúmeras empresas que apresentaram resultados.

Ao mesmo tempo que Trump acena com mais tarifas, a guerra na Ucrânia vai a caminho do quinto ano e a Europa continua sem saber bem para que lado se há-de virar em termos de investimento para as próximas décadas. O que nos dizem os mercados? Que está tudo bem e que já “comemos incerteza ao pequeno-almoço”, como dizia, e bem, o diretor-adjunto do DN, Nuno Vinha, por estes dias em conversa na redação.

Senão, vejamos: Millennium BCP? Lucros recorde. EDP? Lucros recorde. Caixa Geral de Depósitos? Lucros recorde. Axa? Lucros recorde. Allianz? Lucros sobem 8,5%. Indra Group? Lucros disparam 55%. Veolia? Lucros avançam mais de 10%. Salesforce? Lucros crescem 20%.

Nos mercados, o estado de euforia vai sendo contrabalançado pelas naturais correções das sessões que sucedem aos dias de anúncio de resultados, mas o cenário é animador. Como, aliás, têm referido os relatórios que tentam prever como vai andar a atividade económica mundial em 2026 - o da Coface, de que falamos nesta edição, incluído. Intitulado O Momento da Verdade, o relatório anual publicado pela seguradora de créditos, e apresentado na semana passada em França, mostrava algo que já começáramos a adivinhar no final do ano passado: estamos há tanto tempo a falar de incerteza, que ela se tornou no novo normal.

Ou seja, os comportamentos que são geralmente esperados por parte das empresas e particulares, para fazer face a esses momentos de indefinição - retração de consumo, diminuição do investimento, diversificação controlada da carteira de clientes -, não se estão a verificar. Na verdade, as estimativas apontam para o contínuo crescimento da economia mundial - e os resultados que agora começam a ser apresentados, relativos às atividades das empresas no ano passado, parecem confirmar, precisamente, essa tendência.

No fundo, está a acontecer o mesmo que ocorre quando as tragédias se tornam muito recorrentes ou o número de mortes num acidente é tão elevado, que começamos a dessensibilizar - a psicologia chama-lhe psychic numbing, ou entorpecimento psíquico. Na verdade, é um mecanismo de defesa que o nosso cérebro usa, a determinada altura, porque deixa de conseguir processar tal nível de sofrimento. Quando estamos a falar de um número elevado de vítimas, por exemplo, é impossível sentirmos igual dor por cada uma delas, porque isso nos destruiria.

"Todo o sossego que se conhecia no Mundo Ocidental, graças aos esforços diplomáticos das últimas décadas, foi posto em questão e os valores fundacionais da União Europeia, que nos guiaram social, política e economicamente desde o final da II Guerra Mundial, foram postos em causa."

Acontece mais ou menos o mesmo quando vivemos há tanto tempo em cenários ditos incertos. A verdade é que após o Grande Confinamento, naquele longínquo ano de 2020, a certeza foi algo que desapareceu da nossa realidade. Mudámos a nossa forma de trabalhar, a nossa forma de nos relacionarmos socialmente, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia trouxe-nos a inimaginável guerra para a porta, a reeleição de Donald Trump tem estado a alterar a nova ordem mundial, as catástrofes naturais vão-se sucedendo, a União Europeia foi obrigada a reorganizar-se e a tomar decisões, a NATO ganhou novos membros… todo o sossego que se conhecia no Mundo Ocidental, graças aos esforços diplomáticos das últimas décadas, foi posto em questão e os valores fundacionais da União Europeia, que nos guiaram social, política e economicamente, desde o final da II Guerra Mundial, foram postos em causa.

Só que depois dos primeiros choques que todos sentimos - a covid-19, o início da Guerra, o aumento exponencial do fosso entre ricos e pobres -, a verdade é que já deixámos de nos chocar. Como sempre. E as empresas estão a ter desempenhos que nem elas esperavam.

Se esta acomodação à nova ordem das coisas vai continuar, ainda será cedo para dizer. Agora, o que parece claro é que já não há qualquer incerteza a travar decisões, investimentos ou consumo. E isso é música para os ouvidos do mercado. Ou, se calhar, podemos mesmo assumir que e a incerteza é o novo bull

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