Durante décadas, a ordem económica e geopolítica global assentou na designada Pax Americana. Tendo emergido após a Segunda Guerra Mundial, baseava-se na hegemonia dos Estados Unidos através de alianças, instituições e regras que estruturavam a economia e a segurança globais.A Pax Americana não eliminou conflitos – até porque o confronto latente com a União Soviética esteve sempre presente – mas garantiu algo essencial para estados e empresas: previsibilidade. Regras estáveis, organizações multilaterais e alianças duradouras criaram um ecossistema onde o comércio internacional, o investimento e as cadeias globais de valor puderam prosperar.O que muda com Donald Trump não é a força dos Estados Unidos, mas a forma como essa força é exercida. A lógica deixou de ser a da liderança sistémica, passando a ser a da negociação transacional: cada acordo é revisto, cada aliança tem um preço, cada compromisso é contingente. Em termos estratégicos, é a passagem de um líder-arquiteto para um player oportunista.Tudo isto possui uma clara analogia com a Pax Romana – origem, aliás, da expressão usada nos tempos modernos – que correspondeu a um longo período de estabilidade política, paz interna e prosperidade relativa no Império Romano que se estendeu aproximadamente de 27 a.C. a 180 d.C. Durante esses dois séculos, Roma adotou uma estratégia de ecossistema: o ator dominante assumiu os custos de coordenação, definiu regras e criou valor para o conjunto, beneficiando desse sistema que foi capaz de construir.Já o atual inquilino da Casa Branca aplica uma lógica mais comum em políticas de curto prazo: extrair valor imediato, renegociar permanentemente, usar a incerteza como arma negocial. Funciona a nível tático, mas corrói a confiança que sustenta o mercado global.Em gestão estratégica, este é um erro conhecido: ganhar contra parceiros e aliados, mas perder o sistema e a rede de relações construída ao longo de décadas. Ao fragilizar regras e instituições, a hegemonia aumenta o poder bilateral dos EUA, mas reduz o valor do ecossistema global do qual depende. A história romana é, neste aspeto, elucidativa: quando o império passou de arquiteto da ordem a mero extrator de rendas, a estabilidade começou a desfazer-se e a decadência tornou-se evidente.Para as empresas – sobretudo europeias e de economias pequenas e abertas como a portuguesa – as implicações são significativas. Num mundo menos previsível, o risco estratégico aumenta: as cadeias de fornecimento tornam-se mais frágeis, os contratos menos fiáveis e a exposição a decisões políticas erráticas é claramente maior. Paradoxalmente, o maior perigo não é uma hegemonia forte, mas a ausência de uma hegemonia funcional.A lição estratégica é simples e atual. Liderar um ecossistema cria, a longo prazo, mais valor do que vencer todas as negociações. Roma percebeu isso durante dois séculos, tendo o declínio começado quando deixou de aplicar a lição. O trumpismo, ao tratar a hegemonia como um negócio de curto prazo, pode ir ganhando algumas batalhas, mas arrisca-se a perder o sistema que tornou essas vitórias possíveis. Talvez algum conhecimento mais profundo da História Universal não fizesse mal à atual liderança norte-americana.