Afirmação da tokenização financeira de ativos
Se os últimos dois anos foram marcados por legitimação (2024), e pela experimentação (2025), 2026 poderá representar, ou seja, afirmar-se como o ano da consolidação estratégica no universo dos ativos digitais. A questão já não é saber se fazem parte do futuro financeiro, mas como serão integrados, escalados e rentabilizados. Os bancos e grandes instituições financeiras terão os ativos digitais formalmente nas suas agendas. O maior desafio será estratégico: decidir o ritmo de adoção, definir prioridades e evitar decisões precipitadas que podem acontecer pelo receio de ficar para trás. A vantagem competitiva dependerá cada vez menos da qualidade da tecnologia e cada vez mais e mais da capacidade de implementação da mesma, e da execução desta transição.
Numa primeira reflexão, importa dizer que os ativos digitais estão progressivamente a deixar de ser vistos como instrumentos de geração rápida de riqueza especulativa (muito associado às criptomoedas), e passarão a ser encarados como a nova infraestrutura financeira. A tecnologia assente em blockchain, os processos de tokenização e as stablecoins serão conceitos cada vez mais entendidos como processos de tecnologia que suportam pagamentos, liquidez e gestão de ativos.
Numa segunda reflexão importa dizer que a adoção institucional será crucial, e esta está cada vez mais forte à medida que investidores, intermediários e empresas avançam num processo simultâneo. Larry Fink , o CEO da Blackrock, maior gestora de ativos a nível mundial referiu, na coluna que escreveu em dezembro na revista The Economist, que “a tokenização de ativos é a próxima maior evolução na infraestrutura de mercado”, defendendo que o processo pode reconfigurar a forma como títulos e ativos são liquidados e negociados globalmente.
O Banco Central Europeu também tem vindo a preparar-se para esta transição. Na apresentação do projeto do euro digital (2021), a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que o objetivo central do projeto é garantir que, na era digital, cidadãos e empresas continuem a ter acesso à forma mais segura de dinheiro - o dinheiro emitido pelo banco central. O enquadramento regulatório, apesar de trazer debate e tensões, também tende a funcionar como catalisador ao reduzir riscos, e atrair capital mais convencional para estas soluções.
Por fim, existem alguns desafios que serão importantes durante este ano. Por um lado, as chamadas stablecoins - um tipo de criptomoeda concebida para manter um valor estável, normalmente indexado a um ativo como o dólar, o euro ou outro ativo de reserva - entram numa fase decisiva: o teste será a sua utilização em pagamentos reais. A questão é escala e concorrência com os sistemas tradicionais.
Noutro campo, também muito relevante, que é o dos ativos do mundo real viverão um ano de validação. O mercado exigirá provas concretas de utilidade económica - demonstrando redução de custos, maior eficiência, aumento de liquidez e integração regulada no sistema financeiro - para deixar de ser uma promessa tecnológica e passar a representar uma verdadeira evolução da infraestrutura financeira.
