Análise. Mercados recuperam, risco mantém-se
Esta semana, as bolsas recuperaram de forma expressiva, apoiadas na perspetiva de uma desescalada no conflito entre os Estados Unidos e o Irão. A descida do preço do petróleo reforçou este movimento, refletindo uma menor preocupação com os preços da energia.
Neste contexto, os mercados continuam a não precificar um cenário de disrupção prolongada no Estreito de Ormuz, embora o equilíbrio permaneça frágil e dependente da evolução do conflito.
A recuperação das bolsas reflete, também, alguma fadiga face a comunicações contraditórias de ambas as partes. A administração americana tem alternado entre uma postura mais agressiva e sinais de abertura à negociação, procurando conter o impacto negativo nos mercados. Do lado do Irão, a instabilidade interna e a fragmentação do poder, após a morte de Ali Khamenei, têm contribuído para mensagens inconsistentes.
Depois de vários episódios de tensão sem impacto duradouro, os investidores começam a reagir de forma mais contida, reduzindo rapidamente o prémio de risco sempre que surgem sinais de estabilização, o que explica a rapidez com que os ativos de risco recuperaram.
Apesar da melhoria observada nos mercados esta semana, não está excluída a possibilidade de um novo agravamento da situação, com impacto direto no preço do petróleo. Nesse caso, os preços da energia tenderiam a manter-se elevados durante mais tempo, pressionando a inflação e penalizando o crescimento, sobretudo na Europa, mais dependente de energia importada. Setores como retalho, indústria e transporte seriam os mais afetados, enquanto energia e defesa tenderiam a beneficiar.
Este cenário teria também implicações diretas para a política monetária. Um petróleo mais elevado tende a travar a descida da inflação e a reduzir a margem para cortes de juros, sobretudo na Europa, onde o crescimento continua fraco.
Nos Estados Unidos, o impacto é mais limitado, mas a Reserva Federal deverá manter as taxas elevadas por mais tempo. Neste contexto, e tendo em conta o calendário político, é pouco provável que os Estados Unidos estejam dispostos a aceitar um choque petrolífero global como custo para sair do conflito. O mais provável é que procurem manter a pressão sem desencadear uma disrupção energética prolongada.
No curto prazo, o comportamento do petróleo deverá continuar a ser o principal barómetro do risco, condicionando a evolução dos mercados e das expectativas de inflação.
